Após 11 anos ausente, Metallica se redime e “faz História”

•fevereiro 5, 2010 • Deixe um comentário

“Vamos fazer História aqui. Nós temos ótimos cantores aqui presentes esta noite. Vocês devem cantar como jamais cantaram em suas vidas. Esse vai ficar conhecido como o show de volume mais alto: ‘Metallica faz História em São Paulo’ [gesticula o vocalista, abrindo os braços com as mãos abertas, como se criasse uma manchete de jornal]. Então, está faltando uma música? Qual é? [Gritos da platéia]. Isso mesmo. Essa é de Kill ’Em All, são três palavras simples: ‘Seek and Destroy’.”
Simpatia não é exatamente o que se espera de uma banda de metal. Não somente no fim da noite de domingo (31/01), em um Morumbi com arquibancadas vazias, uma vez que a pista foi liberada para todos, mas durante as duas horas de apresentação, o Metallica se mostrou uma banda apaixonada por seus fãs, que já haviam lotado o mesmo estádio na noite anterior e comparecida em massa ao show em Porto Alegre, dias antes.
Assim que as luzes se apagam, os telões nas laterais do palco exibem cenas do clássico faroeste Três Homens em Conflito (The Good, the Bad and the Ugly). Enquanto Clint Eastwood dispara tiros no bandido, a belíssima “The Ecstasy of Gold”, canção que abre os shows do Metallica desde os idos dos anos 1980, enche as fãs de expectativa. Sem frescura, as guitarras roubam a cena com a primeira canção oitentista da noite, “Creeping Death”, seguida por “Ride the Lightining”. “Vocês estão prontos?”, berra em bom português James Hetfield, antes de emendar versos de “Fuel”, única canção de Reload que parece ter sobrevivido ao seu tempo. Como se não bastasse a força do hit, lança-chamas iluminam as laterais do palco, enquanto o Metallica faz a pista ir à loucura.
“Vocês gostam de música pesada, não é? Nossos amigos do Sepultura nos disseram que sim. Essa é para eles”, diz Hetfield, dedicando a famigerada “Sad But True” para a banda de abertura. Logo após, surge um violão no palco. Surpreendentemente, o clássico “The Unforgiven”, pouquíssimas vezes nos sets da turnê “World Magnetic”, é tocado – provavelmente causando inveja aos fãs que acompanharam a banda nos outros shows.
Death Magnetic, disco carro-chefe da turnê, não fica de fora. O Metallica emenda “That Was Just Your Life” e “The End of the Line”, antes de mais uma surpresa. Com introdução leve e aumento gradual de peso, característica primordial em suas baladas, “Welcome Home (Sanitarium)” é celebrado pelo público saudosista. Voltando ao seu álbum mais recente, a banda pede a contribuição do público para a canção de maior repercussão do disco, “Cyanide”. Logo em seguida, a quarta e última música de Death Magnetic é executada, “My Apocalypse”.
Se alguém ainda não estava convencido do repertório da banda, as cinco próximas músicas fizeram qualquer um se render ao metal do quarteto. Explosões, como de granada, pelo palco, um som bélico toma a atmosfera, fogos de artifício preenchem o céu, então entra em cena a épica “One”. Para completar, os telões perdem as cores, ficam em preto e branco, contribuindo com o clima da canção anti-belicista. A poderosa “Master of Puppets” faz a alegria dos fãs. Para “Fight Fire With Fire”, obviamente, os lança-chamas não falham. Singles mais bem sucedidos de Metallica, vulgo Black Album, “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman” contrastam emoções na pista. A primeira faz todos cantarem com a alma, enquanto a segunda não deixa ninguém parado, o mar de gente é pura energia em explosão.
Para o bis, “Helpless”, cover de Diamond Head, banda de heavy metal britânica, uma das influências do Metallica. A noite é encerrada com “Hit The Lights” e a esperada “Seek and Destroy”, que causa um furor enlouquecedor na pista.
Evitando correr riscos, Metallica ignora o controverso álbum St. Anger e a fase mais pop, de Load e Reload, com exceção de apenas uma única música. Após o vexame dos shows cancelados em 2003, não errar é como um pedido de desculpas aos fãs que tiveram de aguardar 11 anos para rever a banda em solo brasileiro.
A “World Magnetic Tour” chega ao seu fim no Brasil, mas sem antes ouvir um “do caralho!”, proferido pelo baixista Robert Trujillo, e repetido dezenas de vezes pelo público antes do Metallica deixar o palco. Quem sabe para voltar num curto espaço de tempo e sem erros do passado para serem corrigidos.

Longe da paz interior

•janeiro 31, 2010 • Deixe um comentário

Dois problemas não o deixavam viver tranquilamente. Sentia-se sempre um passo atrás das pessoas com quem convivia e admirava, em termos gerais, passando pelos estudos, cultura, carisma, companheirismo, qualidades, habilidade, eloquência e experiência de vida. Em segundo lugar, mas não menos importante, sentia que a insatisfação com a vida o mataria uma hora ou outra. Não importava o quanto tentasse, sempre acabava se frustrando. E das frustrações caia em frágeis momentos de depressão, que, em sua maioria, passavam rapidamente com uma conversa amigável com algum companheiro desiludido.
A insatisfação crescia por dentro na mesma intensidade que a chuva caia em sua cidade, causando enchentes de raiva consigo mesmo. Não ver perspectiva em alcançar seus objetivos o deixava cada vez mais infeliz, mesmo sendo a tristeza momentânea. Mas ele já não aguentava mais viver com o peso de decepções circulando em seu sangue. Precisava encontrar uma maneira de não si deixar abalar por qualquer desventura cotidiana.
Às vezes, sentia que a vida tinha perdido o sentido. Quanto mais se esforçava, mais distante seus ideais se encontravam. Quanto mais procurava a paz, mais decepções resolviam surgir diante de seus olhos. Enquanto a ruína tomava controle de seu espaço interior, a esperança, que mantém o ser humano a respirar, dissipava-se em meio ao caos turbulento de mais uma escolha sem resultados esperados.
Apesar da tormenta em que se encontrava, algo estava diferente das demais vezes em que teve de enfrentar períodos de desânimo. Dessa vez o problema, pelo menos o principal, não era solidão, dor ou um fracasso inesperado. E, além disso, sabia que seu desconforto com a vida uma hora passaria, pois já não via mais o problema se perpetuando ao longo de sua existência, como em diversas outras ocasiões chegou a acreditar.
Insatisfação, como já citado, era a palavra da vez. Se recebia um elogio, seja onde for ou pelo que for, ficava lisonjeado, encantava-se. Porém, não era o bastante para salvar o dia. Mesmo que encontrasse uma maneira de respirar sem esforço, uma hora precisaria se lembrar de como se fazia, embora o ato fosse natural, havia necessidade de retomar o controle dos pulmões.
O que precisava era sentir-se bem consigo mesmo. Para isso, viver como vinha não era suficiente. Sabia de suas qualidades, mas se sentia fraco. Só havia uma saída para libertá-lo das angústias da vida: o reconhecimento. Enquanto não fosse valorizado, como achava que deveria, continuaria a se sentir um qualquer, alguém especial para ninguém, sem valor. Precisava sentir que o mundo o abençoaria, lhe traria a felicidade com o dia-a-dia.
Mas como seu tão aguardado quinhão se extraviou em alguma viela de suas escolhas passadas, o que sobrou para preencher o espaço foi a insatisfação. Esta, entretanto, ele não esperava receber. Cedo ou tarde a alegria há de encontrá-lo novamente, substituindo o desconforto, como em outras situações. O medo, porém, permanecerá. Enquanto não exterminar os flagelos, que continuam a alimentar a insatisfação e  o levam a se sentir um inútil, sempre cairá em pesares. Não importa o quanto se sinta bem, seus demônios internos apenas descansam. Quem sabe um dia possa se ver livre deles… Somente assim para não desdenhar a si mesmo.

Green Day explora contradições do século em ópera-rock

•janeiro 14, 2010 • 2 Comentários

Para uma banda de rock, quatro anos entre um álbum e outro podem significar muitas coisas. Em alguns casos, é a falta de inspiração que determina o longo jejum de novas músicas. Há artistas que cansados da rotina de estúdio-turnê, preferem tirar férias, entram em hiato por tempo indeterminado. Quatro anos podem significar também a ruína de uma banda. Nesse período, muitos fãs deixam de vestir camisetas pretas com logos auto-explicativos, não se lembram mais onde guardaram o CD com músicas que movimentaram sua geração e, pior de tudo, criticam o artista pelo demora, alegando que este tem apenas interesse em dinheiro e compõe músicas pop de fácil aceitação. Tudo o que se construiu está em jogo entre um disco e outro.
No caso do Green Day, quatro anos representam crise de meia idade e o fim da era George W. Bush. Depois do multi-platina American Idiot (2004), o power trio apresenta sua segunda ópera-rock. 21st Century Breakdown, lançado em 15 de maio de 2009, teve três anos de composição, iniciado em janeiro de 2006. O produtor Butch Vig se aliou à banda apenas no último ano do processo de criação das músicas, provavelmente contribuindo para que a espera não chegasse há cinco anos.

21st Century Breakdown

Christian e Gloria, personagens da ópera-rock, representados na capa de 21st

A faixa título, e também quarto single do disco, é o que o Green Day traz de melhor. Billie Joe Armstrong (vocalista/guitarrista) canta como nunca se ouviu antes. De uma introdução simples, a música cai em ritmo forte, com Armstrong apresentando boas melodias, dentro do seu limite vocal. Quando se pensa que já ouviu tudo, a ponte leva o Green Day a sua zona de conforto. A música fica nervosa, com vocais de protesto. No fim, se torna uma canção que deve levar multidões a cantarem com a banda, em uma espécie de hino. Soa, definitivamente, épica.
Uma banda experiente não comete o erro de começar uma nova jornada com algo de difícil aceitação. O primeiro single “Know Your Enemy” foi feita para ser hit. Refrão pegajoso, riff repetitivo, versos de simples assimilação. A música lembra um pouco do Green Day dos anos 1990 por ser simples, sem muitas variações. Mas, ao mesmo tempo, remete aos singles de American Idiot.
O principal diferencial de 21st são as melodias vocais. Realmente Armstrong evoluiu com os anos. O Green Day também utiliza mais backing vocals e harmonias vocais, para sustentar as diferentes passagens em suas músicas. Dessa vez, é possível ouvir três ou quatro riffs de guitarra numa mesma canção. Além disso, quem se acostumou com sucessos da banda como “Basket Case”, “Hitchin’ a Ride”, “Minority”, vai estranhar a presença de piano e cordas nesse álbum.
Por ser um disco de ópera-rock e o Green Day não tocar mais como nos anos 1990, pensar que o punk já era é um erro grande. Músicas como “Christian’s Inferno” e “Horseshoes and Handgrenades” provam que o som característico da banda não são desprezados. Bons refrões também não faltam ao disco, como no single “East Jesus Nowhere” e “The Static Age”. Esta última com bom conjunto dos instrumentos, sendo uma das melhores do álbum.
As baladas também têm seu momento, embora seja difícil apontar uma balada que não acompanhe ritmos mais pesados. “Viva La Gloria!”, “Viva La Gloria? (Little Girl)” e  “Before the Lobotomy” de início se mostram suaves. Mas é só a guitarra soltar os primeiros acordes para que as músicas não sejam definidas como baladas. Nesse caso, “Restless Heart Syndrome”e “21 Guns”, segundo single, são as melhores músicas para momentos mais tranquilos. Em “21 Guns”, Armstrong canta sem muito esforço e sua voz soa fraca, como de um homem deprimido. Apesar dos mais de cinco minutos, a música rola fácil.
”American Eulogy: Mass Hysteria/Modern World” parece ter saído de uma jam session. Um riff atrás do outro, versos quase falados, refrões repetitivos. Há uma similaridade entre a maioria das músicas: as partes leves cedem lugar rapidamente a guitarras hardcore. A última música, “See the Light”, é mais uma a apresentar esse aspecto, que, caso alguém torça o nariz, deve antes ouvir as primeiras composições da banda, que, em sua maioria, não traziam muitas variações.
Provavelmente, 21st Century Breakdown não será tão bem sucedido quanto seu antecessor. American Idiot, primeira ópera-rock da banda, embora menos consistente, traz mais músicas com potencial para singles aclamados pelo público. 21st tem tudo para agradar o público mais fiel do Green Day. “Know Your Enemy” e “21 Guns” são as faixas que devem mais tocar nas rádios. Os quase cinco anos entre os álbuns valeram a pena. Resta esperar pelo próximo para saber se o Green Day continuará investindo em óperas-rock, voltará às origens ou dará novos passos na carreira. Mas, de qualquer forma, o que os fãs mais querem é não ter de esperar tanto tempo por um novo disco.

Para meu amigo José Carlos Cazarim Filho, o Zé.
Desculpe pela demora, mano!

Os Tempos do Comodismo

•janeiro 7, 2010 • 1 Comentário

A atual juventude brasileira é privilegiada. Viver nos tempos da sociedade do conhecimento e informação é, sobretudo, muito vantajoso. A partir dos anos 1990, quando o País encontrou seu rumo, milhares de oportunidades surgem a cada dia, ou melhor, segundo, devido às contribuições do mundo cibernético. Crescer no Brasil hoje, sem sombra de dúvidas, é muito mais enriquecedor do que em qualquer outro período econômico, político e social já estabelecido nesse país.
A referência a oportunidades não pode ser entendida de qualquer maneira. Obviamente, conseguir um emprego não é tarefa tão simples, se comparado aos anos de chumbo, principalmente as décadas de 1970 e 1980. Mas convenha-se concordar que o leque de opções para as gerações de hoje adolescentes é infinitamente superior. Com tendência a continuar aumentando. Atualmente, ao mesmo tempo em que se dedica à educação básica, o jovem pode: aprimorar habilidades, como esportivas e artesanais; enriquecer sua cultura, produzindo e/ou acompanhando o desenvolvimento das artes, sejam plásticas, cinematográficas, sonoras, cênicas etc.; aprimorar ou adquirir conhecimentos por meio de diversos cursos, tais como de idiomas, informática, técnicos. Ou seja, no mundo de hoje, oportunidades e alternativas para entreter e capacitar o jovem não faltam. O que falta é direcionamento.
Em contrapartida ao diversificado mundo de escolhas, o jovem se acomodou. Na história deste país, foi a juventude, sobretudo, que saiu às ruas para reivindicar o fim do regime autoritário, conhecido como Ditadura Militar (1964-1985). Nas universidades, correntes políticas eram formadas.  Os jovens da segunda metade do século passado, hoje adultos, embora numa sociedade fechada para discussões, pouco amistosa e sem grandes visões do futuro, viviam com ideais coletivos. A participação dos jovens para a construção do País foi exorbitante. Vale ressaltar que as lutas da juventude de tempos passados não eram, em grande parte, alimentadas pela mídia ou pelos genitores. A juventude falava por si própria.
A explicação para a paralisação do protagonismo juvenil pode ser encontrada durante a fase de formação dos novos filhos do Brasil. Hoje, a educação básica, apesar de todo o conhecimento científico amplamente difundido, está carregada de falhas, sendo a principal delas a conscientização do poder do conhecimento. O ensino fundamental não desperta o raciocínio crítico, deixando esta tarefa para o ensino médio, que, por sua vez, deveria aconselhar ao jovem participação na sociedade. Esse ciclo vicioso não direciona os jovens brasileiros a se unirem, realizarem ações sociais, terem uma vida coletiva em prol do meio social em que convivem.
Enquanto não for realizada uma revolução na educação básica brasileira, demonstrando a capacidade jovial e o poder que o conhecimento concede, continuaremos a criar jovens cada vez mais leigos às situações diversas, problemas e ideologias comodistas.

Escolhas

•dezembro 31, 2009 • 2 Comentários

O seguinte texto foi escrito em meados de novembro como parte integrante da avaliação final  da disciplina Oficina de Redação, do 4º semestre do curso de Jornalismo. O tema proposto era algo como “A vida é bonita”. Ele reflete um pouco do atual momento do autor. Portanto, resolvi publicá-lo, fechando o ano de 2009.

Ao me deparar com o tema proposto para essa dissertação, logo pensei em fazer o texto mais ambicioso de minha vida. Vida, aliás, que é o tema da redação, é uma palavra de apenas quatro letras, e que todas as demais, sejam maiores ou menores em questão de caracteres, precisariam se unir para enfrentá-la de igual para igual, uma vez que almejassem significar algo mais que a vida. Embora eu acredite que, independentemente dos seus esforços em conjunto, não conseguiriam explicar o sentido dessa minúscula palavra tão misteriosa, surpreendente, individual, aterrorizante, apaixonante.
Quando me referi ao texto como sendo o mais ambicioso de minha autoria, fui imoral e ignorante, pois minha intenção era demonstrar mais conhecimento sobre a vida do que suponho qualquer outro pudesse vir a ter. Pois então, a primeira lição a se retirar dessa exacerbada convicção é que, como qualquer outro ser humano, cometo falhas ao vangloriar-me de algo que não demonstrei pelo que poderia me gabar. Sou apenas mais um na multidão de opiniões, perdido entre as questões sem resposta que atormentam mentes sem rumos.
Meu maior medo com esse texto era transformá-lo num apanhado de clichês, com frases soltas dizendo que a vida é assim, não daquele jeito; que o certo é isso, não aquilo. Basta! Lugares-comuns são expressões vazias disfarçadas, que soam fortes quando não se tem o que falar para alguém que não raciocina o que lhe é dito. Embora meu esforço seja grande, é capaz de haver um ou outro clichê por estas linhas. Mais uma vez, sou apenas mais um ser humano, raça suscetível a erros.
O que posso dizer sobre a vida, sem medo de ser repreendido, é que não há um jeito certo de viver. Não li isso em livro algum, não é moral de família, muito menos concepção de algum ídolo. Mas, com toda certeza, é a maior lição que aprendi. Quem seria eu para dizer como meu próximo deve se comportar, agir, encarar seus medos, realizar sonhos? Seria tamanha presunção de minha parte!
Dessa forma, se acredito que não há uma maneira correta de viver, como, então, deveríamos aproveitar essa dádiva divina, a que chamamos de vida? A resposta para essa pergunta não sou eu quem pode dar. Aliás, eu assim como nenhuma outra pessoa.
Acredito que cada um tem suas paixões, buscas, motivos, alegrias, medos, crenças e tantas outras incertezas que nos tornam únicos. Porém, o que a vida me ensinou, em meio aos momentos em que quase parei de respirar por felicidade ou tristeza, é que ela nada mais é do que fazer escolhas. A todo o momento estamos nos decidindo por algo, por alguém ou por algum caminho que deve nos levar a um lugar que desejamos. E a cada decisão fechamos inúmeras oportunidades desconhecidas de nossa razão. A vida é fazer escolhas e não se arrepender de suas conseqüências, buscar os melhores resultados que as alternativas possam lhe oferecer.
O jeito único de viver de cada ser humano é resultado de sua educação, que o faz viver do que aprendeu, e de suas escolhas, que o ensina a viver em decorrências das armadilhas presentes em cada percurso. Em contrapartida ao fato de acreditar que todos têm seus ideais, ambições e desejos, há algo que une todas as vidas, independente de seus temores, influências e conceitos. O que visa cada escolha na vida? Simplesmente, a felicidade. Não há um jeito certo de perseguir a felicidade. Há diversas maneiras.
Enquanto escrevi esse texto, de que não me orgulho muito, (re)encontrei minhas escolhas e objetivos. Talvez tenha apreendido algo com isso. Se meu leitor quiser encontrar os seus, basta começar a escolher. E tirar as melhores lições de cada decisão. A vida é única, e ninguém melhor do que si próprio para lhe ensinar a vivê-la.

Vidaloucagem

•dezembro 20, 2009 • 1 Comentário

O que ele mais queria era viver sem preocupação. Farto é como se sentia em relação à vida que vinha levando, sempre buscando algo que, embora parecesse perto, continuava distante. De certo modo, suas incontáveis tentativas eram impulsionadas pela vontade de vencer. Porém, as derrotas acumuladas o fizeram decidir por uma vida diferente. Um modo de vida que ele nunca se orgulharia, mas que, em nome da felicidade, o salvaria das decepções.
Era acostumado a se dedicar aos estudos, trabalhar com competência, apoiar os amigos, conviver em família e tantas mais coisas que o faziam ser respeitado. Mas não era suficiente, e, por isso, resolveu mudar. Deixaria de ser quem era. Se tornaria um vida loka.
Fatigado de frustrações, escolheu uma vida que ir a faculdade não significaria adquirir conhecimento. Passou a frenquentar as aulas para apenas ter presença, já que a intenção não era ser reprovado. Quanto antes o diploma chegar, melhor, pois era tudo o que o passou a querer da universidade. Não ligava mais para as notas medianas, quando elas não eram abaixo do necessário, como passou a ser rotineiro. Os bares o recebiam todas quintas e sextas-feiras. Se desse, também os visitava nas segundas, terças e quartas.
Em um ano, mudou de emprego quatro vezes. Sempre ganhando mais do que no anterior. Certa vez, largou o emprego onde escrevia diariamente sobre seus ídolos por outro que tratava de produtos farmacêuticos. Óbvio que a remuneração triplicou. O prazer laboral não significava mais nada. Só a grana importava.
Aliás, ídolos que deixou para trás. Cansou do rap-rock, com guitarras estridentes e lirismo reflexivo. Todo fim de semana frequentava rodas de pagode. Lá, descobriu os prazeres do mundo feminino. Enquanto arranhava acordes no cavaquinho, que conseguiu num rolo feito com o velho violão autografado por uma banda de Brasília, as mulatas se derretiam com as canções sobre amor e sexo. Nunca mais se apaixonou. Consequetemente, os amigos, que passaram a ser muitos, nunca mais o virão com olhares pesados. Era todo sorrisos.
As camisetas pretas estampadas com logos de seus ex-ídolos foram substituídas por camisas floridas, coloridas, Onbongo, Billabong, Rip Curl, entre outras marcas que os novos amigos da Escola de Samba vestiam.
No mesmo ano dos quatro empregos, teve tantas, ou mais, mulheres como nas duas décadas de vida antes da vidaloucagem. Assim como não se dedicava aos empregos, apenas trabalhando para cumprir horário, não ligava para nenhuma das mulheres que choviam em seu encalço. Falava com a loira pelo MSN, trocava recados com a morena pelo Orkut, recebia mensagens da ruiva pelo celular. E tudo isso era feito no quarto da japa, enquanto esperava ela se arrumar para o pagode da noite.
Com a aquisição do diploma de ensino superior, depois de um comemorado 5,5 no Trabalho de Conclusão de Curso, não estudou mais. A segunda graduação que pretendia fazer foi deixada de lado. Primeiramente, os filósofos da antiguidade já não faziam mais parte de quem ele era. O único Sócrates com quem refletia, ou melhor, trocava idéia era o dono do bar nas proximidades de sua casa. Aos fins de semana, passava oras no reduto socrático, acompanhado do amigo e também discípulo de seu tutor, o álcool. Além da troca de corrente filosófica, outro motivo que o fez estacionar nos estudos foi o casamento. Sim, casou-se, mas com nenhuma das garotas do pagode.
Em um dos fins de semana de cerveja, futebol e mulher, emaranhou-se nos braços de uma boliviana, a quem ele chamava carinhosamente de índia. Meses depois, a gravidez veio à tona. Sem amor, mas com certo afeto, casou-se antes do primeiro filho nascer. Nunca se apaixonou de fato pela esposa. Mas ela o tratava bem, e ele encontrava saídas para se divertir com outras. Isso era tudo o que mais poderia desejar da nova vida em termos amorosos.
A única derrota que a vidaloucagem não conseguiu salvá-lo viria anos depois, e ele, enfim, voltaria a chorar na vida. Ao lado dos filhos desolados, chorava como um bebê que sofre de regurgitação. Desconhecia o sentimento vivido na longínqua época de desilusões. A dor o afligiu naquela noite em que seu time acabara de perder a final da Taça Libertadores da América nos pênaltis. Vidas lokas também sofrem…

Primeiramente, direitos humanos

•dezembro 4, 2009 • 1 Comentário

Todos os dias, milhares de pessoas se dirigem ao centro de São Paulo. Muitos porque lá trabalham. Boa parte vai a passeio, pois o centro é um dos pontos onde se reúnem muitos atrativos da cidade, em termos de compras, instalações públicas e históricas. Há também aqueles que não deixam o centro de jeito nenhum. Não porque eles amam esta região da capital, mas porque não têm para onde ir depois do horário comercial, quando os demais se despedem dos colegas de profissão e enfrentam ônibus lotados de trabalhadores, estudantes e tantos mais que fazem parte da caótica população da principal metrópole da América Latina.
Ao Largo do Paissandu, rodeado de paradas finais de ônibus vindos da Zona Norte, um estrato da população se une, no sentido de permanecerem perto um dos outros, não em relação a companheirismo. As duas principais vias que desembocam no Largo são a Av. Rio Branco, com início nos arredores do bairro do Bom Retiro, e a famosa Av. São João, que liga a Barra Funda ao centro. Há muito em comum entre as avenidas e a região central. Embora no Paissandu, ou à medida que se aproxima do centro, o número de moradores de rua cresça, o percurso de ambas as avenidas é repleto de pessoas sem ter para onde ir, o que comer, vestir, sem emprego e estudo.
Pensa-se que o centro se trata de uma região esquecida por Deus, ou, deveras, pelos governos que administraram a cidade. Não, a questão não é essa. É inegável que passar todos os dias por um local assim não é nada elegante, charmoso, carismático, quem dera romântico. Mas, de certa forma, nos acostumamos a isso. Não conseguimos imaginar o centro de São Paulo arborizado, com edifícios reluzentes, limpo e, principalmente, sem vidas jogadas a destinos inumanos.  Segundo a Constituição, todos os cidadãos devem ter seus direitos humanos assegurados. A sociedade, porém, se cegou perante tamanha discriminação, onde o individualismo está acima de qualquer ato de caridade.
Ao mesmo tempo em que essas vidas foram esquecidas, e são diariamente, pelas leis, governos e civis, há pessoas ainda de pouco contato com o mundo, pouco corrompidas pela sociedade, que ainda estão de olhos abertos para a situação lamentável do próximo. Ao se deparar com uma cena de miséria, toda criança questiona o que acontece, como as pessoas moram na rua, o que elas fazem da vida, porque ninguém as ajuda. Infelizmente, são apenas crianças, e não podem fazer mais do que abrir os olhos dos adultos, quando estes não fecham os delas primeiro.
Viver no terceiro mundo é um paradoxo: o país está crescendo, mas não para todos que fazem parte dele.

Adeus, Compacto

•novembro 27, 2009 • 1 Comentário

Fui informado de seu assassinato, e me disseram que o esqueceram de enterrar. Nunca pensei que sua passagem por aqui seria tão efêmera. Mas, ao mesmo tempo em que morreu cedo, deixou sua marca em muitos corações, ou melhor, ouvidos.  Lembro-me muito bem de conhecidos vindo me contar cheios de alegria nos olhos sobre sua chegada. Fato que ocorria inúmeras vezes, em diversas situações. Nos aniversários, então, sempre se esperava vê-lo novinho em folha. Mas, infelizmente, isso tudo é passado, pois o mataram.
Sinto muito em dizer-lhe, mas são bem poucos que sentem a sua falta. Já há um tempo, as pessoas encontraram um outro com quem “curtir”. E, com pesar no coração, acredito que a isso se deve seu homicídio. Alguns nem se lembram do seu potencial sonoro. Hoje, só dão ouvidos a um tal chamado MP3.
Embora não seja suficiente, quero que saiba que o MP3 não tá com nada. Sua melodia é infinitamente superior a dele. E, com ele, as pessoas não sentem o imenso prazer que só você soube propiciar. Nos anos 1990, seu apogeu, os alto-falantes explodiam. As pessoas paravam durante às tardes e se divertiam, mesmo sozinhos. Aliás, sozinhas não, em companhia de seus encartes. Hoje não é mais assim. Simplesmente, sentam em frente a um monitor qualquer e, enquanto fazem qualquer outra coisa alienante, se esforçam para ouvir algum som mais intenso por meio das fracas caixas de som do computador.
Quem sente muito a sua falta é a Música. Infelizmente, só soube te dar o devido valor depois de sua morte.  Quando você reinava, as canções não se sentiam só. Sempre andavam agrupadas, como uma família. Na linguagem deles, família se chamava álbum, lembra-se? Com o MP3 isso ainda vigora, mas está em estado terminal. Os valores familiares se corroeram, pois os artistas preferem lançar um single para download do que passar meses em estúdio, procriando, construindo famílias.
Não posso esquecer de citar os Mini Systems. Essa turma sente muito a sua falta. Além de se sentirem trocados pelos PCs, não têm com quem mais “trocar idéia”, pois adoravam entrar em contato com você. Hoje só abrem a “boca”, melhor dizendo, a bandeja para não acumular poeira.
Você morreu jovem. Quantos anos mesmo? Uns 20? Não sabia que a depressão fosse uma doença tão forte. Ao compasso que ia caindo no esquecimento, seu sofrimento aumentava, e ninguém percebia isso. E, mesmo que notassem, sinto em dizer que não iam te estender a mão. Durante sua infância, boa parte desistiu de você, cansando de tentar de moldar aos padrões de convivência. Sendo assim, devida a falta de reciprocidade, suas cópias passaram a ser mais procuradas do que você. Apesar de você sempre ter sido infinitamente mais belo do que elas, o que importa é o interior, não é mesmo? E até mesmo com algumas falhas de papo aqui ou ali, os piratas (este é o apelido que receberam) ocuparam seu lugar. Eis o flagelo de suas doenças.
Circula por aí que a sua mãe, a Dona Gravadora, não soube te educar. Te pôs no mundo, mas não criou direito. É isso que dizem. E isso é uma concepção unânime. Dizem também que você era metido, não dava atenção aos pobres, só andava com capitalistas. Por isso, alegam que era interesseiro, além de falarem que só te conquistavam com dinheiro em abundância. Mas, sobretudo, a culpa não é sua. Sua mãe não soube criá-lo.
Já o MP3 é muito mais sociável e acessível. Dá atenção a todos da mesma forma, sem olhar o extrato bancário, como era seu costume. Devido ao esquecimento depressivo, a sua ganância por capital, má criação e limitado espaço sonoro, a morte resolveu levá-lo. E, quando as pessoas vêem seu corpo, em formato circular, tomam um susto, pensam que é um morto-vivo.
Porém, algumas pessoas sempre se lembrarão dos momentos vividos ao seu lado. A maior preocupação agora é com sua mãe. Está desamparada por causa de sua perda. Os psicólogos dizem que ela sente um vazio e busca preenchê-lo de qualquer forma possível. Já os médicos alegam que ela está em estado terminal.

Dead By Sunrise nasce das cinzas de Chester Bennington

•novembro 23, 2009 • 1 Comentário

O ano era 2005, e o Linkin Park estava em hiato. Enquanto seus companheiros de banda tentavam reformular o contrato com a gravadora, em meio a discussões com a Warner e vai e vem de informações sobre um possível retorno ao estúdio para a gravação do terceiro álbum, e o parceiro de vocais Mike Shinoda surgia com um projeto paralelo de rap, Fort Minor, seu mundo ruía.
Vocalista da banda que mais vendeu no século 21, Chester Bennington sofria com o fim de seu casamento, passando por recaída nas drogas e no alcoolismo, além de viver desprovido daquilo que seu talento lhe proporcionou. Uma vez acostumado a fartura de dinheiro, viver sem ele não foi fácil para Bennington, que, segundo o próprio, “tudo o que eu tenho é o que você não tomou”, sobre a ex-mulher, em “In Pieces”, do Linkin Park. Nesse mesmo ano, suas únicas aparições nos shows do Music for Relief (entidade criada pela banda afim de angariar fundos para vítimas de desastres naturais) e Live 8 foram sacrificantes, já que todos os dias desejava morrer ao nascer do sol. Embora fosse um zumbi na Terra, um homem arruinado, cumpriu seu papel com as obrigações de tocar nos shows em benefício de causas sociais, sem que ninguém notasse sua agonia implícita.
Em 2006, a banda se reuniu novamente para produzir o tão aguardado disco sucessor de “Meteora”. Em 14 meses de estúdio, muitas ao lado do lendário produtor Rick Rubin, “Minutes to Midnight” foi lançado no ano seguinte, dividindo a opinião dos fãs que esperaram quatro anos por um novo álbum. Porém, antes de entrar de cabeça na produção do terceiro disco do LP, Chester Bennington, com colaboração de amigos da banda Julien-K, iniciou seu projeto paralelo, que mais tarde viria a se chamar Dead By Sunrise. “Eu tinha algumas canções que soavam muito bem, mas eu sabia que não pertenciam ao estilo do Linkin Park. Eram mais sombrias e mais humoradas do que qualquer outra coisa que eu tinha levado para a banda. Então decidi trabalhá-las por conta própria ao invés de transformá-las em músicas do Linkin Park.”
Como o Linkin Park está acima de qualquer vontade individual, Bennington cessou as gravações de seu disco solo para gravar com a banda. Somente após o fim da extensa turnê de divulgação de “Minutes to Midnight”, que tomou conta de 2007 e 2008 na vida do grupo, Bennington, enfim, teria tempo de finalizar seu álbum solo.
Produzido por Howard Benson, “Out of Ashes” é o primeiro disco do Dead By Sunrise. O debute traz 12 canções alimentadas pelas raízes roqueiras do vocalista. Com uma sonoridade grunge, punk e hard rock (longe das características do Linkin Park), Bennington mostra mais liberdade melódica, acompanhado dos exagerados backing-vocals dos instrumentistas. O título do álbum (fora das cinzas, em tradução livre) tem intenção de expressar como se Bennington renascesse para a vida. O processo de gravação teve duas etapas. Na primeira, antes de “Minutes to Midnight”, Bennington passava os dias trancado em sua casa, bebendo, se drogando e “curtindo por aí”. Com a reunião do Linkin Park e um novo amor à vista, a solidão e a recaída nos entorpecentes se tornaram uma página virada em sua vida. O fim de 2008 e início de 2009, ao lado de Amyr Derakh (guitarra) e Ryan Shuck (guitarra), do Julien-k, além de Anthony ‘Fu’ Valcic (sintetizador), Brandon Belsky (baixo) e Elias Andra (bateria), foram dedicados à finalização do disco, que viria a ser lançado em 13 de outubro deste ano.

Análise
A balada “Fire” abre o disco queimando as perspectivas de som leve e letras tranquilas, com bateria forte e boas levadas de guitarra nos versos. O destaque, porém, fica por conta da ponte, contrastando leveza e peso, com Bennington cantando “Eu tenho que encontrar um jeito de não deixar minha dor queimar até os ossos”. Na segundo faixa temos o primeiro single. A grunge “Crawl Back In” é pesada e cativante, com belos gritos do vocalista. Um ponto interessante é a letra ter um pé na teoria do assujeitamento (“Às vezes eu olho para mim mesmo e não sei quem sou / eu vejo um pedaço de cada um que conheço enterrado sob a minha pele”). Apesar da coincidência, a letra é baseada na batalha pela qual Bennington passou ao enfrentar o vício do alcoolismo. Mas, assim como no lirismo do Linkin Park, à margem para diversas interpretações. Entre as canções pesadas do disco, destaque para  ”My Suffering”, com poderosos gritos de Bennington. Já a hardcore “Inside of Me” vem acompanhado do melhor refrão do disco. A letra, assim como o nome da canção, bem que poderia ser do Linkin Park, por ser bastante introspectiva, ao se referir a uma mudança interior (“Eu me sinto mais só a cada dia/ E simplesmente tão longe/ Eu sei que algo deve mudar/ Dentro de mim”).  
“Condemned” é a mais pesada do disco, mas não mostra muita qualidade, exagerando em gritos. “End of the World” não é necessariamente uma grande música, mas, por outro lado, traz boas guitarras e Bennington, mais uma vez, revela ótimo desempenho. Fato curioso é que se trata da única música fora de contexto do disco, pois trata de temas sociais, como não ter dinheiro para comprar gasolina ou pagar aluguel.
Nas baladas, as decepções de Bennington durante seus anos de angústia são escancaradas. “Let Down”, segundo single, inspirada no fim de seu primeiro casamento, expressa o medo de seguir por um velho caminho na vida, em que o final é triste e decepcionante. Talvez, se trate da canção mais cativante do disco, apoiada no fato de ter refrão grudento. “Into You” tem melodia vocal esquisita e soa pop. Mas é um ótimo som, com algumas passagens mais pesadas e letra obscura (“Fumo um outro cigarro/Ele mata a dor/ Isso é tudo o que sobrou de mim” | “Sou um homem cujas tragédias foram substituídas por lembranças/ tatuadas em minha alma”). Pode-se dizer que “Give Me Your Name” é o ponto mais fraco do disco. É tão melosa, mais tão melosa que, às vezes, pensa-se que o voz não é de Chester Bennington. “Too Late” não parece o tipo de música que teve muita produção, mas as letras sinceras e o som agradável valem a pena.
As surpresas positivas são o duo que fecha o disco. “Walking in Circles” é obscura e quebra com a estrutura musical presente no disco. Se trata de uma faixa fria, com sonoridade sombria e letra questionante. Para encerrar, Dead By Sunrise apresenta o que “Out of Ashes” tem de melhor. “In the Darkness” abre com beat box, passando por melodias perfeitas de Bennington e culminando em refrões intensos. O sintetizador faz sua parte, encerrando assustadoramente essa canção. Ou melhor, deixando para trás o período de cinzas de Chester Bennington, bravamente revelado num grande disco de rock.

Em cinzas

•novembro 18, 2009 • 2 Comentários

Conviver com pesarosos desprazeres tem sido difícil para ele. Nunca soube ao certo o quão poderosos poderiam ser. Na verdade, uma vez superados, não são mais sentidos, a não ser que voltem a atacar de maneira tortuosa. Em outras situações de profunda desesperança, acompanhado da inexperiência, trilhou caminhos esburacados mas que o levaram a seguir adiante, com perspectiva. Contudo, nem sempre é simples recomeçar. Ainda mais quando não se há a vista um motivo recompensador. Uma nova busca. Algo que o faça sorrir despretensiosamente, sem motivos, por apenas achar que vale a pena respirar.
Ao mesmo tempo em que a infelicidade cobre seu rosto pueril, um fragmento de alegria dorme em seu interior, acordando, de vem em nunca, para aliviar a tensão cotidiana. E traz, no momento inoportuno, batimentos em ritmo de hits nervosos, estridentes, desconfortantes. Pois é assim que ele se encontra, caído em pensamentos otimistas, acreditando que a fuga de tais sensações miseráveis não tardará a encontrá-lo, em algum lugar que haja um motivo qualquer para recomeçar. Ou em suas palavras, voltar a respirar livremente.
A dor e a insegurança se apossaram desse desafortunado sonhador. Embora seus dias não sejam mais sempre os mesmos, repletos de céus trevosos, ele ainda vive em cinzas. Diferentemente da ave mitológico, que renasce independentemente do que a abater, já não sabe mais se suas entranhas possuem força para bombear o líquido fervoroso, da cor de cabelos entorpecentes, que explode dentro das feridas ainda não cicatrizadas, devido ao contato contínuo com o flagelo causador de sua agonia em vias públicas. O sangue escorre por seu interior e sua bondade altruísta é como um barco a deriva num oceano fervente de ignorância coletiva, onde ninguém percebe que a tormenta um dia há de engoli-lo. Se é que já não foi engolido por ela…
Ele sente que o tempo, condutor de vidas, corre contra seus anseios de renovação. Parece que seus batimentos desaceleram a cada novo dia, tornando esses dias uma obrigação de estar entre os queridos para não desapontá-los. Porém, sua vontade, escondida aos olhares cegos da convivência, não é mais de lutar. Concomitantemente a esse torpor mental, que nubla seus propósitos, há dúvidas sobre os próximos passos a serem arriscados num mundo em que não há tempo para lamentações, pois o meio em que está inserido exige cada vez mais produtividade, sem ligar para os fatores exteriores que congelam almas perdidas.
Dor. Sensação miserável. Traiçoeira. Destruidora. Derrubou sonhos, trouxe insatisfação com a vida. Implantou discórdia entre realidade e fantasia, razão e coração. Distancia-o mais e mais de sua paz. Deixa-o infinitamente longe de sua vocação doadora de humano, sempre presente às angústias dos companheiros de pesar. E o aproxima de sua mera condição de homem, fadada ao sono sempiterno, cuja tentação em se despedir da dádiva divina ameaça pôr um final na sua existência. Eis a sensação que o dilacera a cada sinal de ingratidão, mesmo quando seus olhos se afastam de tal visão mortífera.
Como se não bastasse, a insegurança em caminhar sem direção é o novo desafio que se apresenta. Há pouco tempo, perdeu seus objetivos, seus desejos, suas quimeras. Andar em círculos pode ser atordoante, quando não sufocante. A insegurança é parceira dos fracassos, pois um homem sem confiança não discerne entre as escolhas que o podem levar a uma nova divisão e as velhas estradas manchadas de sofrimento noturno e domingos de sol aquecidos de suor na cama das lamurias.
Enquanto sua luneta não alcança novas perspectivas, as ilusões mantêm os singelos sopros de vida direcionados aos pulmões, cansados de tanto esforço para alimentar o interior arruinado, que acredita, valorosamente, que algo está a caminho de resgatá-lo dos silenciosos desprazeres que transformaram sorrisos em peças raras. Mesmo em cinzas, ele encontrou uma nova busca: o recomeço.