Mil sóis de 2010
31/12/2010 3 Comentários
Numa tenda atrás do Palco Ar do Festival SWU, eu olhei nos olhos do ídolo e o agradeci pela maior lição a qual eu pude aprender através de sua arte. Mesmo que eu perdesse a memória de tudo o que aconteceu em uma vida, em especial em 2010, acredito que a noite de 11 e a madrugada de 12 de outubro deste ano seriam as primeiras evocadas por mim, em um processo de retorno à vida.
O dia em que eu conheci o Linkin Park me fez entender o significado da palavra “surrealidade”. De longe, é o dia mais especial da minha vida, pois, além do contato com os meus ídolos maiores, o show, que margeou a perfeição, foi aguardado por exatos seis anos e um mês. Não só por mim, mas também pelo “bando de loucos” por essa banda que eu conheci de perto naquela ocasião.
Antes disso, porém, muitas desventuras e aventuras marcaram meu 2010. Profissionalmente, a evolução foi fora de série. Encerrei minha jornada na Folha Dirigida em maio, com um ano e dois meses de estágio. Principalmente nesse quase completo primeiro semestre de 2010, trabalhei por música no jornal semanal. Atingi um nível que me possibilitou dominar boa parte do noticiário e da atividade de reportagem. Além disso, minhas tardes na redação eram cercadas de amigos, o que contribuiu em meu desenvolvimento pessoal e profissional.
Fui surpreendido com uma proposta do Sindifisco-SP (Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil – Delegacia Sindical de São Paulo) e resolvi encará-la. Mudei de ramo. Saí da redação e entrei na corporação. Aprendi uma vertente da área a que chamamos de jornalismo empresarial, ou, no caso do sindicato, jornalismo sindical. Fazer jornalismo por um outro ponto de vista expandiu a minha percepção dessa profissão. Simbolicamente, a renovação do meu contrato de estágio não por mais seis meses, mas sim por um ano me diz que tive êxito no desafio.
Não só de vitórias se preenche um ano. Senti a solidão mais do que nunca na vida. Os amigos simplesmente haviam desaparecido na mesma época em que eu era um louco apaixonado. Ninguém aparecia, ninguém entrava em contato, ninguém convidava para sair. A garota não fez diferente. A paixão mais explosiva que eu tive se tornou, no fim, a maior decepção amorosa. Nunca eu havia feito tanto para que desce certo. Nunca eu havia me sentido um homem tão desprezível pela recusa de meus carinhos.
Foi então que o sol voltou a resplandecer em minha direção, assim como havia feito no início do ano, quando pela primeira vez eu viajei de avião e conheci uma cidade fora dos limites de São Paulo. Fale o que for do Rio de Janeiro, mas, se tratando de belezas naturais, a cidade é maravilhosa. Todo homem de fé deveria ao menos uma vez visitar o Cristo Redentor. A sensação é indescritível e sem igual.
A partir do segundo semestre, logo no início de julho, a paixão pela garota foi reduzida a zero e me aproximei de alguns amigos. Nessa época, fui chamado de “autossuficiente” e “racional”, porque me sentia bem em plenitude. O período de férias da faculdade, na verdade, me trouxe demasiada maturidade.
De uma vez, tirei a carteira de motorista, depois de duas reprovações no exame prático, fruto da época de extrema solidão; o Linkin Park confirmou o show no SWU e lançou o primeiro single do álbum A Thousand Suns, “The Catalyst”; e comecei a formular as primeiras frases em espanhol, idioma que comecei a estudar por iniciativa própria no início do ano, época de grana curta.
No ano do centenário, o meu corintianismo explodiu. Fui a um jogo de Libertadores da América pela primeira vez. Vale ressaltar que o ingresso custava 1/5 do meu salário. Acompanhei o time na campanha pelo Campeonato Brasileiro em diversas idas ao estádio. E comprei duas camisas do time no mesmo ano, fato raro.
Apesar da grande demanda de trabalhos da faculdade, que me impediram até de ir a festas de aniversário, não tive problemas com nenhuma matéria, e alguns professores me disseram que eu seria definitivamente jornalista.
O Linkin Park lançou um álbum conceitual (A Thousand Suns) que retrata a jornada do ser humano a partir da perda da inocência ao retorno para casa. A arte retratou o que eu passei a fazer desde a minha alcunha de autossuficiente: saímos de casa, aprendemos, criamos, destruímos, temos esperança, entramos em desespero, fracassamos, temos fé, brigamos com o sistema, conquistamos, perdemos. No fim, sempre retornamos ao mesmo ponto, ao lugar onde somos amados incondicionalmente. Voltamos para casa, porque lá estão as pessoas que não condicionam o amor a nós por determinado interesse ou situação.
Além do Linkin Park, em 2010 fui a shows de grandes nomes da música: Metallica, Guns N’ Roses, Green Day, Eminem. E também minha vida noturna desencadeou. Já era viciado em shows, passei a ser viciado em baladas.
Nesse ínterim, tive uma paixão completamente diferente da última. A convivência de anos e as pequenas coisas que fiz me mostraram que nem tudo de mim eu tinha dado a quem me repudiou com veemência e rancor. Embora não tenha dado certo, não caí em tristeza como era habitual. Serviu para que eu me recuperasse como homem e me desprendesse de idealizações.
Quando pedi a atenção de Mike Shinoda, o gênio por trás das músicas que me retratam, na tenda atrás do Palco Ar do SWU, lhe disse: “Ei, Mike, deixe-me te dizer uma coisa. Eu aprendi que não posso pôr a minha felicidade em coisas que estão fora de meu controle. Eu aprendi isso com você, cara. Obrigado.”
