Linkin Park flerta com experimentalismo em álbum conceitual
31/01/2011 1 Comentário
Derrube seus muros. Este deve ser o lema do Linkin Park toda vez que entra em estúdio para gravar um novo álbum. O mais recente lançamento da banda, A Thousand Suns, faz com que as mudanças presentes no álbum antecessor, o platina duplo Minutes to Midnight (2007), pareçam passos de criança em direção ao desconhecido. 
Pela segunda vez consecutiva, o produtor Rick Rubin foi escalado para co-produção ao lado do vocalista, rapper, guitarrista, tecladista, mente criativa do Linkin Park, Mike Shinoda. Embora sejam os mesmos nomes envolvidos, os três anos que separam os dois álbuns parecem pouco tempo perto da mudança sonora alcançada pela banda.
Em Minutes to Midnight, o Linkin Park se desprendeu da fórmula convencional do sucesso alcançado até então por seus dois primeiros álbuns, o platina quádruplo Meteora (2003) e o disco de diamante Hybrid Theory (2000), mas as músicas ainda soavam como hit singles. Dessa vez, o desafio, segundo a banda, era criar um álbum que não seria uma mera coleção de músicas, mas que fizesse com que as pessoas o escutassem do início ao fim, como uma narrativa.
A jornada retratada no álbum, o primeiro conceitual da banda, utiliza metáforas de destruição do mundo em uma guerra atômica para simbolizar a autodestruição do ser humano, a partir da perda da inocência passando pela desesperança, mudanças, poder do sistema, clemência a Deus e o retorno para casa, onde podemos nos recompor para iniciar uma nova jornada.
Assim como o segundo disco, Meteora, a eletrônica é praticamente onipresente em A Thousand Suns. Mas as similaridades – se é que existem – param por aí. Neste álbum, o Linkin Park resolveu flertar com o experimentalismo. As canções não respeitam a estrutura musical que consagrou a banda. Diferentemente de Meteora, em que a eletrônica divide as bases com riffs pesados, a guitarra é um mero instrumento de apoio.
Em A Thousand Suns, Mike Shinoda divide boa parte dos versos melódicos com Chester Bennington, não se limitando apenas aos momentos de rap. A eletrônica, apagada em Minutes to Midnight, conduz o álbum, que também conta com o apoio de tambores (“When They Come For Me”), bateria eletrônica (“Wretches and Kings”), coral (“Iridescent”, “When They Come For Me”), vozes simultâneas (“Robot Boy”, “The Catalyst”). E até violão (“The Messenger”).
Fazer com que este álbum tocasse nas rádios também seria um desafio, disse Shinoda, uma vez que não se trata do Linkin Park que se espera ouvir, muito menos o tipo de som característico das rádios. Lançado em setembro passado e com dois singles até o momento, “The Catalyst” e “Waiting for the End”, parece que mais uma vez o Linkin Park se saiu bem diante dos riscos. As duas músicas são número 1 nas paradas de rock da Billboard e, embora o álbum não tenha vendido tanto quanto os anteriores, é, entre os discos de rock de 2010, o mais vendido do ano passado.
Depois da consagração, resta a uma banda optar por se manter numa zona de conforto ou inovar. Parece que a segunda opção faz bem ao Linkin Park, que produziu seu melhor álbum desde Hybrid Theory.
Por dentro da jornada
The Requiem – Poucas introduções são lembradas na história dos álbuns. Esta pertence a esse seleto grupo. O tom da narrativa de A Thousand Suns começa com “Deus salve a todos nós/ Nós vamos queimar dentro do fogo de mil sóis?” entoado por uma voz amedrontadora. Não somente para o álbum, mas também para abrir os shows esse “réquiem” funciona como o primeiro capítulo de um livro. Sem esforço, conquista a atenção de todos. Não haveria início melhor para esta jornada.
The Radiance – Ainda não é hora de pôr os pulmões pra fora. Esta é nada mais que a segunda parte da introdução do álbum. O pai da bomba atômica, Robert Oppenheimer, fala sobre a destruição do mundo já prevista na escritura hindu, a Bhagavad-Gita. O Linkin Park não veio para brincar, não é?
Burning in the Skies – Logo no primeiro canto do álbum, a primeira surpresa. Quem solta a voz é Shinoda. Não é rap. É melodia. O refrão fica por conta de Bennington. Dentre todas as músicas de A Thousand Suns, essa é a mais fácil de digerir. Isso vale tanto aos fãs quanto às rádios. Facilmente o Linkin Park poderia tê-la encaixado em guitarras pesadas, já que a estrutura não foge do padrão. Não à toa, foi escolhida como o futuro terceiro single do disco. A guitarra que corta na ponte e o refrão ganham qualquer um. Pela primeira vez uma música que não explode os ouvidos inicia um álbum da banda.
Empty Spaces – 18 segundos de interligação entre uma música e a próxima. Explosões, sirenes e tiros. Tudo pela narrativa do álbum.
When They Come For Me – Apenas a 5ª faixa, ou 2ª real canção, e já nos é apresentado o lado mais hip-hop do Linkin Park. Aqui está o primeiro grande sinal de experimentalismo. A bateria e os tambores sustentam um dos raps mais invocados de Shinoda. A letra contém muitas mensagens subliminares, como não ser obrigado a fazer sempre um Hybrid Theory, ser um mero robô da indústria musical e, quando entenderem os seus propósitos, você já ter partido para outros desafios. Uma das melhores canções de hip-hop de todo o catálogo da banda.
Robot Boy – Uma música mais lenta, cheia de camadas texturais, com vozes simultâneas e sem refrão. Shinoda e Bennington parecem cantar juntos de uma maneira que nenhuma das vozes se destaque sobre a outra. Alguns sons abstratos de difícil identificação instrumental, batidas fortes e uma atmosfera mais cativante ao final. O nome desta música, assim como de outras, parece não ter relação alguma com a letra, mas, ao analisar o tema conceitual, faz todo o sentido.
Jornada del Muerto – Nome em espanhol, letra em japonês. Mais um interlúdio. Os versos que se repetem são da letra de “The Catalyst”. Há um trabalho com os interlúdios no álbum, pois nenhum se assemelha a outro. Todos soam únicos e fazem a interligação sem ruídos entre as faixas.
[Atualizado 08/02: Jornada del Muerto é o nome de um deserto no Novo México (EUA) em que foram feitos os primeiros testes nucleares. Em referência a esses testes, Oppenheimer citou Bhagavad Gita.]
Waiting for the End – Desde quando uma balada é fan favorite em um álbum do Linkin Park? Pela receptividade dos fãs de base, com esta música, exatamente no meio do álbum, não tem pra ninguém. Neste disco, até o rap traz inovação. O estilo ragga dá a essa balada uma sensação upbeat. O ritmo, inicialmente lento, incorpora força ao longo dos versos, até estourar com a guitarra pós-ponte. A parte final da música é energizada, principalmente pelos belos dotes vocais de Bennington. Com certeza, um dos pontos fortes do álbum.
Blackout – Experimentalismo em plenitude! Bennington faz um “rap” ao estilo Michael Jackson e, em seguida, desatina a gritar. O que não há de gritaria no álbum, há em “Blackout”. Em vez de guitarras pesadas, o teclado, a eletrônica e o forte bumbo dão corpo à base desta música. Os samples ao estilo Reanimation (álbum de remixes lançado em 2002) na ponte surpreendem. Em seguida, surge outra música. É como se a banda quisesse combinar partes incrivelmente distintas em uma mesma canção. Até se acostumar, assusta.
Wretches and Kings – Geralmente o Linkin Park cria músicas de rock com elementos de hip-hop. Neste caso, parece ser o contrário. O rap de Shinoda soa mais hip-hop do que nunca. A base não conta com riff de guitarra, mas sim com batidas e eletrônica fortes, quase dançantes. O refrão é o melhor do álbum, daqueles que põem a galera pra pular nos shows. Aliás, esta é a música para performances ao vivo. O discurso em tom emocionado do ativista político Mario Savio parece que foi de fato entoado sobre a base da música, e não encaixado. Destaque também para os scratches de Joe Hahn.
Wisdom, Justice, and Love – Martin Luther King Jr. é o “convidado” da vez. O defensor dos direitos de igualdade racial discursa contra a guerra do Vietnã (1959 – 1975) e o uso de armamento nuclear sob acordes de piano.
Iridescent – Esta é uma daquelas músicas que nos dizem que sempre é tempo de esperança. Baseada em piano, arrisco dizer que é a melhor balada já composta pela banda, como também a música mais bonita de todo o álbum. Ou de toda a carreira do Linkin Park. O canto em baixa tonalidade de Shinoda nos versos contrasta com a melodia emocionante de Bennington no refrão. O coral da força para que a música estoure em esperança. Simplesmente, a melhor letra do álbum. Seria o ponto máximo de A Thousand Suns, mas o melhor vem a seguir…
Fallout – Este interlúdio é um “esquenta” para o clima da próxima música. Aqui, Shinoda solta versos de “Burning in the Skies”. E o canto no início do álbum, em “The Requiem”, nada mais é do que o tema da música que vem a seguir, que também é o primeiro single do disco. A narrativa, goste ou não do álbum, foi completamente trabalhada.
The Catalyst – Os melhores vocais do álbum estão aqui. Talvez seja a melhor alternância entre os dois vocalistas desde “In the End” (Hybrid Theory). A eletrônica tem seu apogeu, soando mais em evidência do que nunca e com o solo de scratch na introdução. Mesmo sendo o primeiro single, a estrutura de fácil aceitação não se faz presente. São quase seis minutos de explosão de som! A música também é dividida em duas partes: a primeira, mais eletrônica; a segunda, com piano, quebra de ritmo de bateria e vocais épicos, que explodem em gritos de Bennington. A música é “a catalisadora” do álbum porque foi o ponto agregador de ideias, que deu diretrizes para inúmeras mudanças. O nome A Thousand Suns foi tirado da letra de “The Catalyst”, o momento de maior excelência do álbum.
The Messenger – Depois de uma sequência de músicas baseada em eletrônica, uma última surpresa. Um simples violão e vocais de Chester Bennington. E mais uma vez o vocalista esbanja talento. É um Linkin Park quase acústico. A exceção se faz pelo teclado no refrão. Em paz se encerra a jornada de A Thousand Suns.