Os sinos dobram na amizade
26/04/2011 3 Comentários
Depois de uma determinada idade – o início da vida adulta, para ser mais preciso -, certas frustrações tendem a ser minimizadas. Isso acontece, por um lado, por causa de nossa experiência em lidar com situações de insucesso e, por outro, porque, à medida que envelhecemos, passamos a nos pressionar para sermos cada vez mais fortes. Ou seja, mais resistentes a certas tristezas.
O crescimento traz consigo a responsabilidade, a maturidade e o equilíbrio, ao mesmo tempo em que nos exige, porém, enfrentarmos situações muito mais adversas do que já havíamos passado, até porque já estamos mais preparados para isso. Mas, se me permite John Donne, nenhum homem é uma ilha.
Geralmente, quando nos encontramos em momentos adversos, nos sentimos como se estivéssemos isolados do mundo. É como se todos os que nos rodeavam em dias de abundante alegria tivessem partido, nos deixado à deriva. Infelizmente, isso não é apenas uma suposição. Boa parte – leia-se a quase a totalidade – das pessoas que estão com a gente compartilham situações e momentos conosco, e não necessariamente são nossos amigos.
Se observarmos bem, temos companhia para ir a jogo do nosso time, para ir à balada, ao cinema, a um show (ainda mais se tivermos um ingresso sobrando), bater papo nos intervalos de aulas, entre outras situações. Mas, muitas vezes, a convivência é limitada a uma única situação. É raro quando alguém se dispõe a nos acompanhar em algo que é muito importante ou interessante para nós, mas que para essa pessoa não significa absolutamente nada. Ou seja, se a situação ou momento também é de interesse de nosso amigo, ele estará lá conosco. Do contrário, cada um segue seu próprio caminho.
Embora no mundo de hoje tempo livre seja escasso, sempre encontramos uma forma de fazermos o que gostamos. Eu, por exemplo, não deixo de ouvir, um dia sequer, uma boa música e procurar canções que desconheço. E mesmo nessa falta de tempo podemos perceber que, em inúmeras situações, a nossa simples presença pode trazer dias melhores para outras pessoas.
Nesse ínterim de cotidiano atribulado, já fui chamado de “amigo”, “amigão”, “brother”, “pessoa rara” – muito em função de compartilhar palavras de apoio e esperança e estar presente em situações em que minha presença era algo totalmente desnecessário. Contudo, quase a totalidade das pessoas que me adjetivaram sumiu. Quando seu tempo para balada, jogo de futebol e barzinho se reduz, seu círculo de amizade automaticamente diminui. Em outras palavras, os “amigos” que compartilhavam situações, assim que estas decrescem ou se extinguem em nosso cotidiano, não terão mais motivos para estar conosco.
A felicidade é outro ponto relevante. O que mais gostamos de fazer com os amigos? Ou qual seria o papel da amizade? Às vezes, tudo o que queremos é, simplesmente, espairecer, jogar conversa fora, rir, tirar o peso do mundo sobre os nossos ombros. Mas quando dizemos que estamos em um momento difícil e chegamos até a implorar para que pessoas cedam parte de seu tempo e afeto para nós, nos equivocamos. Implorar é um verbo insociável à amizade.
Quando transparecemos que estamos em um momento difícil, os amigos de ocasião não só não nos estendem a mão, como também, muitas vezes, nos taxam de deprês e frágeis. Ora, mas não é amizade a responsável por nos ceder ombros em que podemos dividir o peso do mundo?
Portanto, mesmo que o mundo caia sobre nossa cabeça, dizer que está tudo bem é muito mais benéfico se tratando de amizades superficiais, porque ninguém realmente quer saber de nossos problemas, mas sim de quando estaremos disponíveis para ir ao jogo de futebol, ao barzinho, à balada.
Felizmente, a vida não é só feita de “amigos” de ocasião. As mensagens de apoio e esperança retornam a nós através dos raros fiéis amigos. Para eles, não há porque economizá-las, pois, embora enfrentem a falta de tempo, sempre terão ao menos alguns minutos para nos ceder seus ombros.
Às demais “amizades”, cedo ou tarde, os sinos dobram.