O seu TCC é sempre o mais fácil

Já faz algum tempo que queria compartilhar neste espaço algumas considerações sobre o processo de elaboração de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Neste ano, estou fazendo o meu, individual, monografia, o mais fácil, dizem. Pelo menos é o que eu tenho ouvido desde o mês de abril, mais ou menos.

No curso de jornalismo é comum que os TCCs sejam algum produto jornalístico: livro-reportagem, livro-fotográfico, revista, jornal, site, documentário, programa de rádio, programa de TV etc. Porém, há regras para que cada um dos segmentos possam ser produzidos. A principal delas é o número de pessoas em cada grupo. Não quero me estender aos demais cursos porque não sei como funcionam seus trabalhos de conclusão. Contudo, não será necessário para entender onde quero chegar.

Hoje, no final de agosto, desde fevereiro acreditando no tema, ouvindo contestações de todos os lados, todos os dias buscando forças para fazer mais um pouco, percebi que o meu trabalho é o mais fácil de ser feito. Pelo que parece, qualquer um que estivesse em meu lugar o faria com maestria. “É 10 com louvor!”, ouviriam na banca, na certa.

Um equívoco das pessoas, de maneira geral, é não perceberem que somos nós mesmos que criamos nossos problemas. No caso do TCC, ora, qualquer um tem a opção de escolher o trabalho que quer fazer, seja o tema, seja a plataforma de veiculação jornalística. Além disso, você tem de saber trabalhar com o tempo escasso, que te permite ter cerca de oito ou nove meses para terminar seu projeto. Também não podemos deixar de mencionar o número de pessoas envolvido no projeto.

Basta pensar: eu, sozinho, faria um documentário sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte? Eu diria que tudo é possível. Mas ciência e sorte não devem andar juntas. Para esse hipotético documentário, eu teria de pesquisar sobre usinas hidrelétricas, sobre o que envolve a implantação de uma usina no Rio Xingu (PA), sobre documentários, fazer entrevistas com o governo, especialistas, membros da sociedade civil contrários à construção etc. Não preciso nem mencionar que deveria sair de São Paulo para ir ao local em que será (?) construída a usina.

Já para um grupo de cinco pessoas, embora ainda assuste, a possibilidade de o trabalho ser concretizado é muito maior. É como se o projeto “vivesse” 120 horas por dia e tivesse, no caso em que todos os membros do grupo trabalhassem, cinco salários para dar vazão às custas.

Mais importante que o seu trabalho ser fácil (na concepção dos outros) é o seu trabalho ter relevância para você. Ainda no caso hipotético do documentário sobre Belo Monte, será que os cinco membros do grupo são apaixonados pelo tema? Eu duvido.

No meu caso, faço uma pesquisa para identificar a atenção que a imprensa musical dedica à Lei Rouanet (Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991), famosa por permitir a captação de incentivos fiscais para projetos culturais. Para muitos, é completamente chato, porém fácil, claro. Quanto aos temas ditos chatos, ótimo. O curso se chama Comunicação Social – Jornalismo. Se fosse para ser o que os outros consideram como divertido, seria Comunicação Social – Entretenimento. Entretanto, isso não significa que eu não me divirta ao longo do processo.

Ainda sobre os temas “chatos” e “fáceis”, eu duvido que eles surjam do nada. No início do ano um de meus professores me disse que eu deveria procurar algo que me causasse estranhamento. Diante disso, percebi que a imprensa musical (o trabalho ainda não está concluído) pouco dava atenção a esse lado da música. Então, procurei unir a paixão (música) e a contestação (política), porque há um propósito com este estudo que vai além da nota na banca final. Pode parecer absurdo, mas é aquilo que chamamos de lutar por um jornalismo melhor, menos alienado e alienante.

O TCC, por si só, é desgastante. E afeta suas vidas pessoal, profissional e acadêmica. Portanto, mesmo que diante de todos os obstáculos ainda digam que o seu é o mais fácil, sinta-se elogiado. O principal não é ser difícil, grandioso ou teatral, mas, sim, responder a sua pergunta de pesquisa, que é algo que, presumo, represente um pouco de quem você é. O TCC que chamam de “fácil”, eu diria que, na verdade, é o esperto. Ou até mesmo genial.

Por fim, não é necessário muito esforço para entendermos porque há pessoas que dizem que os projetos dos outros são os mais fáceis. Para boa parte das pessoas, os outros são os que têm sorte na vida, são os mais amados, são os que têm mais dinheiro, são os que nasceram em berço de ouro, são os que têm os amigos mais fiéis, são os que menos se esforçaram para alcançar os objetivos. São os prediletos para Deus.

Eu não teria tanta certeza.

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