Jornalista perfila músicos que ganham a vida no centro de São Paulo

Eles não têm fãs, não foram engolidos pela indústria nem contemplados por leis de incentivo à cultura. Mas amam a música, pois ela lhes dá de comer e os fazem esquecer os problemas impostos pela desigualdade social. Compasso urbano: a vida de quem transforma asfalto em palco e necessidade em arte, primeiro livro do jornalista Ariel Cahen, faz jus ao nome.

O livro é uma coleção de perfis – sete ao todo – de artistas que se apresentam no centro de São Paulo. A cidade, conhecida por ser o centro financeiro do país, convive diariamente com manifestações culturais, que entram em “conflito” com o dia a dia urbano e caótico dos paulistanos.

Os músicos retratados na obra são seres humanos simples que utilizam o dom artístico para obter algum dinheiro que lhes permita arcar com as necessidades básicas de suas famílias. A maioria não estudou música. Alguns, aliás, nem ao menos têm instrumentos convencionais. Mas nada disso os impede de fazer seus “shows”. A não ser a chuva, claro.

Os perfis não são extensos. Em algumas páginas, o jornalista enfatiza a origem humilde dos músicos, bem como suas sonoridades musicais e, sobretudo, a paixão pela música. Esta, a responsável por lhes dar o sustento de suas vidas. Além de fácil leitura, o livro vem acompanhado de um CD-ROM, que traz um documentário e fotos dos músicos.

Numa época em que o conceito de “indie” vem se perdendo, a palavra parece ganhar algum sentido ao ser associada às histórias apresentadas. Mesmo sem nenhum apoio, alguns grupos conseguem produzir e vender seus CDs e DVDs aos passantes.

Mais do que retratos de músicos de rua, o livro apresenta uma considerável parcela de artistas que não interessam ao mercado e que não foram contemplados por projetos e leis governamentais. Até mesmo o trabalho artístico nos mostra o quão desigual nossa sociedade se tornou.

 
Obs: a quem interessar, o livro está disponível pelo site da Livraria Saraiva.

A dor do amigo e a importância relativa de Steve Jobs

Quem não gostaria de ter um iPad, um iPod e um iPhone? Quem sabe até mesmo ter em primeira mão o iPhone 4S? Eu gostaria. Apesar de não sentir falta de tudo isso, exceto do iPod, por ser louco por música.

Não tenho muita propriedade para falar de Steve Jobs e seu legado. Gênio? Não sei, mas é o que todo mundo está dizendo. Mas não vou cometer a injúria de menosprezar a sua contribuição tecnológica que revolucionou a nossa maneira de viver.

A morte de Steve Jobs, pra mim particularmente, é algo pequeno. Minúsculo. Para o eu jornalista, é relevante, sim. Se eu fosse seu fã, grande admirador de suas criações e de sua empresa, a Apple, provavelmente estaria lamentando a sua morte. Aliás, não tenho nada contra Steve Jobs e devo mesmo admirá-lo pelo que fez. Além do império tecnológico da Apple, me parece que Jobs ajudava muitas pessoas, e isso merece nossa admiração.

Horas antes do anúncio da morte de Steve Jobs, um amigo me contou que seu pai fez uma cirurgia considerada simples, mas houve algumas complicações no pós-operatório. O pai do meu amigo não está bem. E sinto que meu amigo também não está. Meu amigo também não tem iPhone nem iPad. Talvez tenha um iPod, mas não posso afirmar.

Mesmo que tivesse tudo isso, tenho certeza que todas as bugigangas tecnológicas seriam lixo diante da situação que meu amigo vive.

iPhones e afins são comprados. Quebram e adquirimos outros. Nos roubam, mas podemos ter outros. E se cuidamos direitinho, em dois ou três anos deixarão de ser hype. Se nunca os tivermos, não nos farão falta. Já o pai do meu amigo é completamente o oposto disso.

O pai do meu amigo não é o melhor homem do mundo, o mais justo, o mais amável, o mais lutador. Eu nem ao menos o conheço. Mas é o pai do meu amigo.

Isso aqui não é uma critica ao desenvolvimento tecnológico, até porque eu mesmo desfruto disso. Mas os sonhos de consumo criados pela indústria apoiada pelo marketing são doentios e nos deixam cegos. Enquanto muitos não veem a hora de receber mais um salário para comprar seu iPhone, outros ainda estão fazendo uma refeição por dia. Enquanto alguns idiotas tecnológicos mobilizam outros idiotas através de redes sociais clamando pela desoneração de tributos que incidem sobre produtos como o iPad, temos um alto imposto sobre os produtos da cesta básica, o que deveria ser inadmissível. E o que é mais importante: a cesta básica ou a Apple? Ou melhor, o que é fundamental?

É uma pena que tudo o que foi criado por Jobs não seja para todos. E é uma pena ainda maior ver que aqueles que têm acesso à genialidade de Jobs não perceberem que essas coisas não são tão importantes assim.

Importante é o pai do meu amigo. Assim como uma cesta básica (que nem todos têm acesso), ele está na base. Não me importaria se todos os aparelhos da Apple parassem de funcionar de repente. Ninguém vai (ou pelo menos não deveria) sofrer por isso.

Fica aqui meu voto pela recuperação de um gênio, o pai do meu amigo. Ficam aqui também meus votos para que todos tenham acesso à genialidade de Steve Jobs, mas somente após as três refeições, a saúde, a educação e as oportunidades que todos deveriam ter. Se todos nós tivéssemos tudo isso, hoje Jobs seria um gênio incontestável.

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