Obrigado, jornalismo

Faz alguns dias que tudo terminou. Nenhuma frase foi escrita nos últimos fins de semana nem capítulos de livros de teoria foram lidos. A entrega, a apresentação e a nota do TCC já foram dadas e os colegas também já desfrutam da vida pós-faculdade.

A euforia do momento de glória também já passou. E deixei que isso passasse propositalmente. Assim, esse texto não se enche de palavras enganadas pelo sentimento de vitória por conta de um trabalho acadêmico.

O trabalho, diga-se, é apenas a cereja do bolo. Eu, particularmente, não costumo comê-la, prefiro muito mais o recheio. E é disso que quero falar.

Com o término desta etapa, de longos (ou curtos) quatro anos, chega-se a um momento de reflexão. É bastante clichê exaltar tudo o que aconteceu, ainda mais quando as coisas terminam bem. Valorizar, porém, o principal de tudo isso nem sempre é o que fazemos.

Ao ingressar na faculdade, o objetivo de todos é obter o diploma, o símbolo de ser um profissional da área escolhida. E o que fazer quando o diploma do seu curso, de um dia para o outro, não é mais necessário para exercer a profissão?

Muito mais que o diploma, a faculdade é um mundo repleto de novidades, ainda mais se você estiver na idade entre o fim da adolescência e o início da vida adulta. Além das transformações naturais que a idade nos traz, a faculdade (pelo menos no meu caso), nos faz entender, sobretudo, o mundo em que vivemos.

Aprender conceitos de notícia e reportagem, escrever com clareza e objetividade, criar uma pauta, entre outras atividades jornalísticas, são irrelevantes perto do que pude aprender durante os anos de faculdade.

Percebi como o mundo que construímos nos destrói dia após dia. Este mundo quer que sejamos mais competitivos do que solidários uns com os outros. E essa competição impiedosa nada mais é do que uma doença criada por nós, nos dizendo que temos que ser bons profissionalmente, melhores que nossos colegas, superiores aos desconhecidos. Só assim o mercado vai te aceitar. E eu pergunto: quem é esse tal mercado? Mais uma doença criado por nós, eu diria. A maior das enfermidades, por que não?

Vivemos em razão do mercado. Tudo o que procuramos desenvolver em nós mesmos é para estarmos mais aptos para o mercado. E, infelizmente, acabamos priorizando nossas carreiras e empregos aos amigos, à família, à vida.

Inconscientemente, criamos conflitos, e muitos. E a maioria das intrigas não possui motivo algum. Nos fechamos em grupos, de uma maneira que os que estão fora são perigosos e invejosos. E isso se deve a nossa ínfima capacidade de compreender e respeitar o próximo porque acreditamos que o sucesso é vertical. Somente quem está no topo, um lugar restrito, é bom. E é lá que devemos chegar, como se esse fosse o motivo de estarmos vivos.

Por conta dessas coisas e outras mais, deixamos de lado, ou tratamos com desprezo, nossa capacidade de nos relacionarmos com afeto.

Ao longo desses quatro anos, pude perceber aquilo que realmente faz nossas vidas terem algum sentido. Depois de alguns amores forçados, crises familiares e existenciais, consegui deixar boa parte das coisas as quais me faziam entrar em desespero ou simplesmente me irritavam para trás.

Tudo isso porque hoje entendo que o que mais vale na vida são os vínculos que construímos com as outras pessoas. Muito mais importante que passar quatro anos estudando para obter um diploma é construir laços com as pessoas que fazem parte da sua vida. Não no sentido que todos precisam ser grandes amigos, o que seria impensável, mas, já que o mundo quer que nos confrontemos, para andarmos na contramão disso.

Digo isso porque quando a vida nos passa a perna, não é nenhum diploma, conta bancária, time de futebol, bens de consumo que salvam nossas vidas. Tampouco notas dez que dizem se somos bons ou não.

O que mais mudou em minha vida nos últimos quatro anos – de professores a colegas de classe e de trabalho – foi a minha rede de amigos.

Obrigado, jornalismo.

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