Última viagem

A mochila nas costas pesa tanto quanto a preocupação na cabeça. Em seu físico, a dor lateja sob os ombros. Cadernos, livros, jornais e tranqueiras são fáceis de suportar. O problema é o psicológico, que grita em silêncio pelo ônibus que o levará para casa depois de mais um dia de altos e baixos.

O coletivo, lotado de gente, chega. O que deveria ser uma viagem tranquila é a última aventura do dia.

Com os fones no ouvido, distrai-se com uma música que reflete um pedido a Deus. Porém, o canto, que deveria ser por proteção, faz mais sentido para o presente momento: que Deus guie o motorista, pois se segurar no ônibus lotado em alta velocidade é difícil e, ao mesmo tempo, assustador.

Deus é bom. Ele atende ao pedido do filho.

- Quer que eu segure a sua mochila? – diz uma passageira confortavelmente sentada. Piedade? Não. Nem Deus. Foi a mochilada na cara.

O peso das costas se foi. Pelo menos por esta noite. A viagem até sua casa leva cerca de 40 minutos. Tempo suficiente para que a música renove o seu espírito, Deus guie o motorista e a dor psicológica durma. Pelo menos por esta noite.

Amanhã o peso nas costas está garantido. Mas desse ele já aprendeu como se livrar.

Obs: crônica escrita em aula, provavelmente em alguma terça-feira de setembro de 2010

Mil sóis de 2010

Numa tenda atrás do Palco Ar do Festival SWU, eu olhei nos olhos do ídolo e o agradeci pela maior lição a qual eu pude aprender através de sua arte. Mesmo que eu perdesse a memória de tudo o que aconteceu em uma vida, em especial em 2010, acredito que a noite de 11 e a madrugada de 12 de outubro deste ano seriam as primeiras evocadas por mim, em um processo de retorno à vida.

O dia em que eu conheci o Linkin Park me fez entender o significado da palavra “surrealidade”.  De longe, é o dia mais especial da minha vida, pois, além do contato com os meus ídolos maiores, o show, que margeou a perfeição, foi aguardado por exatos seis anos e um mês. Não só por mim, mas também pelo “bando de loucos” por essa banda que eu conheci de perto naquela ocasião.

Antes disso, porém, muitas desventuras e aventuras marcaram meu 2010. Profissionalmente, a evolução foi fora de série. Encerrei minha jornada na Folha Dirigida em maio, com um ano e dois meses de estágio. Principalmente nesse quase completo primeiro semestre de 2010, trabalhei por música no jornal semanal. Atingi um nível que me possibilitou dominar boa parte do noticiário e da atividade de reportagem. Além disso, minhas tardes na redação eram cercadas de amigos, o que contribuiu em meu desenvolvimento pessoal e profissional.

Fui surpreendido com uma proposta do Sindifisco-SP (Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil – Delegacia Sindical de São Paulo) e resolvi encará-la. Mudei de ramo. Saí da redação e entrei na corporação. Aprendi uma vertente da área a que chamamos de jornalismo empresarial, ou, no caso do sindicato, jornalismo sindical. Fazer jornalismo por um outro ponto de vista expandiu a minha percepção dessa profissão. Simbolicamente, a renovação do meu contrato de estágio não por mais seis meses, mas sim por um ano me diz que tive êxito no desafio.

Não só de vitórias se preenche um ano. Senti a solidão mais do que nunca na vida. Os amigos simplesmente haviam desaparecido na mesma época em que eu era um louco apaixonado. Ninguém aparecia, ninguém entrava em contato, ninguém convidava para sair. A garota não fez diferente. A paixão mais explosiva que eu tive se tornou, no fim, a maior decepção amorosa. Nunca eu havia feito tanto para que desce certo. Nunca eu havia me sentido um homem tão desprezível pela recusa de meus carinhos.

Foi então que o sol voltou a resplandecer em minha direção, assim como havia feito no início do ano, quando pela primeira vez eu viajei de avião e conheci uma cidade fora dos limites de São Paulo. Fale o que for do Rio de Janeiro, mas, se tratando de belezas naturais, a cidade é maravilhosa. Todo homem de fé deveria ao menos uma vez visitar o Cristo Redentor. A sensação é indescritível e sem igual.

A partir do segundo semestre, logo no início de julho, a paixão pela garota foi reduzida a zero e me aproximei de alguns amigos. Nessa época, fui chamado de “autossuficiente” e “racional”, porque me sentia bem em plenitude. O período de férias da faculdade, na verdade, me trouxe demasiada maturidade.

De uma vez, tirei a carteira de motorista, depois de duas reprovações no exame prático, fruto da época de extrema solidão; o Linkin Park confirmou o show no SWU e lançou o primeiro single do álbum A Thousand Suns, “The Catalyst”; e comecei a formular as primeiras frases em espanhol, idioma que comecei a estudar por iniciativa própria no início do ano, época de grana curta.

No ano do centenário, o meu corintianismo explodiu. Fui a um jogo de Libertadores da América pela primeira vez. Vale ressaltar que o ingresso custava 1/5 do meu salário. Acompanhei o time na campanha pelo Campeonato Brasileiro em diversas idas ao estádio. E comprei duas camisas do time no mesmo ano, fato raro.

Apesar da grande demanda de trabalhos da faculdade, que me impediram até de ir a festas de aniversário, não tive problemas com nenhuma matéria, e alguns professores me disseram que eu seria definitivamente jornalista.

O Linkin Park lançou um álbum conceitual (A Thousand Suns) que retrata a jornada do ser humano a partir da perda da inocência ao retorno para casa. A arte retratou o que eu passei a fazer desde a minha alcunha de autossuficiente: saímos de casa, aprendemos, criamos, destruímos, temos esperança, entramos em desespero, fracassamos, temos fé, brigamos com o sistema, conquistamos, perdemos. No fim, sempre retornamos ao mesmo ponto, ao lugar onde somos amados incondicionalmente. Voltamos para casa, porque lá estão as pessoas que não condicionam o amor a nós por determinado interesse ou situação.

Além do Linkin Park, em 2010 fui a shows de grandes nomes da música: Metallica, Guns N’ Roses, Green Day, Eminem. E também minha vida noturna desencadeou. Já era viciado em shows, passei a ser viciado em baladas.

Nesse ínterim, tive uma paixão completamente diferente da última. A convivência de anos e as pequenas coisas que fiz me mostraram que nem tudo de mim eu tinha dado a quem me repudiou com veemência e rancor. Embora não tenha dado certo, não caí em tristeza como era habitual. Serviu para que eu me recuperasse como homem e me desprendesse de idealizações.

Quando pedi a atenção de Mike Shinoda, o gênio por trás das músicas que me retratam, na tenda atrás do Palco Ar do SWU, lhe disse: “Ei, Mike, deixe-me te dizer uma coisa. Eu aprendi que não posso pôr a minha felicidade em coisas que estão fora de meu controle. Eu aprendi isso com você, cara. Obrigado.”

A Flor de 51 kg

O horário mal havia passado do meio-dia quando ele se levantou pela décima vez para ir ao banheiro. Até a hora de sair do emprego, teria perdido a conta de quantas vezes foi preciso aliviar a tensão. O relógio contava os segundos em seus tics. E cada tic badalava como se soassem os sinos do juízo final.

Não seria o dia de decidir a sua existência. Mas era o dia dos mais aguardados, em silêncio, discretamente. Quando a contagem regressiva para os minutos finais de trabalho começou, o relógio acionou o mudo, de alguma maneira aparentemente além de seus recursos naturais. Na verdade, era um outro som muito mais forte que havia se sobreposto aos tics. Tum tum, tum tum, tum tum, fazia o desenfreado coração, enquanto as pernas se sacudiam, mesmo ele estando sentado na cadeira todo o tempo.

Assim que as primeiras gotas de chuva ameaçaram cair do céu, enfim estava livre para encontrar o motivo de seu nervosismo baseado em excessivas doses de alto astral. Ainda tinha tempo, e o coração pedia por um gesto de carinho sem igual, que o fizesse demonstrar o sentimento que o tornava a cada dia um homem melhor, para ficar na lembrança. Dele. E dela.

TUM TUM, TUM TUM, TUM TUM. A intensidade aumentou, como era de se esperar, quando pôs os pés dentro de uma floricultura. Escolheu a dedo uma única rosa. Somente uma. A vontade era de um enorme buquê, mas provocar susto é diferente de surpreender. Uma era a singularidade perfeita.

As pernas, que antes não paravam quietas, se superaram no início daquela noite. O caminho, a pé, até onde a garota se encontrava era longo. Não tanto, mas a flor, abraçada em seus braços, pesava tanto ou até mais que um saco de cimento. De seu rosto escorriam gotas do esforçado gesto de carinho, acompanhadas do som do TUM TUM cardíaco.

Por onde passava, a cidade cinza se enchia de cores, e seus habitantes paravam para observá-lo, em sua via crúsis.

Optar por uma única flor foi uma decisão sábia. Coragem para mais, talvez ele tivesse. O sentimento o impulsionaria. Mas pesava a ponto de seus braços amolecerem ou paralisarem na mesma posição, abraçados à rosa.

Chegou antes do previsto ao local marcado. Ela, a dama dos olhos dos mais azuis dos céus, demoraria ainda alguns minutos, de acordo com o tempo marcado por tic, tac, tic, tac… No tempo ao compasso de tum tum, tum tum, levaria uma eternidade.

Quando a rosa e os olhos dos mais azuis dos céus se encontraram, o peso nos braços dele se dissipou, e o alívio veio em gotas de chuva carregadas de carinho e felicidade. Pelas próximas horas da noite, ela carregaria a flor consigo, em seus braços, com pura maestria. Era uma flor. Única. E que somente nos braços dela pôde encontrar conforto e, em troca, dar leveza para ser carregada.

Feliz, enfim

 

Já passava da meia-noite quando ele voltou para casa. O cansaço era evidente em seu rosto, que demonstrava preocupação e, ao mesmo tempo, ansiedade. O fechamento do jornal em que trabalhava, um dos maiores não somente de sua cidade, mas também do país, foi um desafio e tanto naquele dia. Porém, sabia que o esforço valeria a pena, pois a entrevista com um dos ícones do rock de Brasília estamparia a primeira página do caderno de cultura do diário.

Há alguns meses, essa entrevista era só mais uma que fazia parte de sua lista de sonhos jornalísticos. Desde que conseguiu o estágio no grande jornal, os nomes que compõem a lista vão sendo eliminados um a um. Com os amigos, compartilha as experiências, formidáveis. Aos leitores, as belas e singulares reportagens, que já o garantiram elogios de seus editores. O esforço, portanto, era recompensador.

O cansaço físico pedia cama. E ele o atendeu. O cansaço psicológico não o atrapalhava, de tão insignificante que era. Os problemas existiam devido à correria do dia a dia. Mas os dias eram bons, e os problemas não eram mais como antes.

Logo que acordou no dia seguinte, a mãe, toda orgulhosa, lhe mostrou o jornal. O pai, que nunca foi de conversar, queria saber como estava e se precisava de alguma coisa, além de chamá-lo para irem ao próximo jogo do time de coração, o que não faziam há anos.

Era o seu dia de folga. E alguém esperou mais do que ele por esse dia.

A namorada compreendia os seus dias agitados, por causa da profissão e dos estudos. Em compensação, era agraciada pelo amor mais puro de um homem. Ela se sentia a pessoa mais especial do mundo. A conquista, nesse relacionamento, não aconteceu uma vez. Ele a reconquistava sempre e sempre, porque sabia que a paixão era um sentimento passageiro, mas possível de mantê-lo, ou intensificá-lo, com gestos e palavras de carinho.

Fazê-la feliz, no fundo, não era criativamente desafiador. Bastavam sinceridade, atenção e carinho. Simplesmente a tríade de sua essência como homem. À noite, seria todo dela, de mais ninguém.

Durante à tarde, enquanto jogava conversa fora com um amigo, recusava os convites dos colegas para passeios noturnos. Por muito tempo amargou noites sem companhia. Mas as recusas não eram por vingança. Apenas se dedicava a quem lhe retribuía da mesma forma. Reciprocidade, a palavra que lhe mostrou o caminho da felicidade.

O amigo sofria de desilusões da vida. Para ele, dor, desesperança, solidão e insegurança tinham ficado para trás, e restava somente ouvir as frustrações da vida do amigo. Não que não estivesse lá para ajudá-lo – o que fazia com prazer -, mas faltava empatia para com sentimentos miseráveis, pois se lembrar dos dias ruins era uma coisa, já das sensações, praticamente impossível.

Antes de ir embora, prometeu ao velho amigo que novos ventos soprariam, mas que é preciso continuar lutando, porque a luta em si é o que move vidas.

O céu cinzento e garoa fina do final de tarde completavam a atmosfera reflexiva que o dia tinha ganhado. O clima não representava o seu espírito, que vivia nas alturas, em paz e equilíbrio. Era uma representação do passado de dias desperdiçados, como se fosse para o amigo o presente. Entretanto, assim que a chuva cessasse e um mísero raio de sol resplandecesse, o céu ganharia cores de esperança.

Esperança que nunca deixou de reaparecer em seus dias de dor, quando lutar contra o seu oposto, a desesperança, era uma vitória a cada momento. A vida, sem aqueles dias, não teria sentido.

Quando eles vierem por você

Estar presente sempre que preciso, às vezes mesmo sem essa necessidade, era uma das suas características mais marcantes, quase como que um sobrenome. Ninguém ousaria dizer que ele não se doava ao máximo por seus queridos, sendo de família ou os grandes poucos amigos da vida. E embora muitas vezes o reconhecimento fosse demonstrado, não compreendia porquê de tantos agradecimentos, uma vez que seus gestos eram sinceros, de corpo e alma, sem esforço ou dor.

Doar-se pelos amigos, inclusive pronunciando o verdadeiro valor da palavra amizade, era fácil para ele. Era a maneira mais fácil de sentir-se bem, pois fazia com que alguém importante também entendesse que era fundamental para sua existência. Por mais confuso que fosse diante dos obstáculos da vida, amizade ele entendia bem o que era. E foi assim até que as decepções vieram… E com elas, a ausência.

Primeiramente, os laços de sangue, com o passar dos anos, enfraqueceram. Os ombros amigos familiares se perderam em algum lugar durante a adolescência. O companheirismo se foi, ao mesmo tempo em que os relacionamentos pegajosos tomaram conta do tempo de trocas de confidências e apoio mútuo.

Já os forasteiros, talvez a palavra que melhor descreva amizades não recíprocas, seguiram por mais tempo, até que foi notado que a falta de companheirismo vindo dos demais era uma angústia sem sentido.

Um aparecia somente quando o time de ambos jogava em sua cidade. Um outro, que não vivia pelas proximidades, não aceitava passeios desafiadores. Um terceiro recusava a maioria dos convites para shows, que era seu passatempo favorito. Já o quarto ficou de ligar antes de seu aniversário, mas a data já passou há semanas, sendo que a lua e a estação do ano nem são mais as mesmas.

A garota a quem se dou por inteiro, uma espécie de amor idealizado, nunca se importou na realidade. Os colegas diários, que via porque compartilhavam dos mesmos ideais profissionais, não passavam de colegas. E uma pessoa diferente que transmitia perspectiva além do comum era só uma idéia na cabeça. Uma idéia não recíproca.

Isso para apenas citar alguns, porque tantos nomes não valeriam a pena serem mencionados ou tratados com carinho, sensação imensurável que gostava de compartilhar.

O choro dos amigos, durante a tarde em que souberam do seu sumiço, foi verdadeiro. Porém, como previsto, durou menos de 24 horas. A vida pedia que continuassem com seus objetivos, sem desistirem ou se arrependerem. Havia balada para curtirem, cerveja para brindarem, futebol para incentivarem. A ausência dele não seria sentida nesses momentos. Nem deveria, já que convites para essas ocasiões eram raros, e, quando apareciam, eram mais de seu ímpeto do que vindo dos demais, que compartilhavam circunstâncias, não o valor do sentimento que une as pessoas.

Pelas redes sociais circularam boatos de seu repentino afastamento. Foi estudar em outro país, dizia um, enquanto outro acreditava que estivesse namorando e se esquecido das amizades. Também diziam que o trabalho ocupava todo o seu tempo e que por isso passou a morar perto do serviço, sem nunca terem recebido um número de telefone ou endereço. Já um dos mais fiéis escreveu uma crônica sobre seu desaparecimento, pensando tê-lo visto numa tarde de domingo, vestido de preto e branco, apoiando o time em Itaquera.

Entretanto, rumores não foram o bastante para que o procurassem. Nem quando uma faísca de dor, trazida pelo som das músicas que o retratavam, queimava os corações daqueles que um dia deram significado a um sentimento tão grande quanto a felicidade. Amizade, quem se importa…

O Elo e a Dor Corintiana

Naquela tarde de 1998 o meio-campista colombiano teve que por duas vezes se posicionar diante do gol adversário. Entre ele e o goleiro, somente a bola sobre a marca de cal. A quilômetros de distância do estádio do Morumbi, o garoto de quase oito anos, atento às frequências radiofônicas que transmitiam o jogo, ainda não sabia que aquela primeira sensação dolorosa pelo time de futebol significava muito mais que a classificação para a final do campeonato estadual daquela temporada. Era um teste em que somente os de coração forte, aqueles capazes de aguentar uma vida de loucuras e sofrimento, são aprovados. Naquele dia, em que pela primeira vez chorou por um time de futebol, entrou para o bando de loucos.

O adversário não vestia verde, três cores ou vinha do litoral. O Corinthians, que tinha a vantagem de jogar pelo empate, pelejava com a Portuguesa de Desportos. Na ocasião, o pai, nervoso com o jogo, recebia a visita de um amigo que torcia pelo time que, à época, ainda não era personagem da Disney. Enquanto os dois conversavam, o locutor narrava a supremacia lusitana no jogo. Ao garoto restava sentir a angústia de imaginar a eliminação do seu time.

Pior que o 1 a 0 desfavorável no placar era a novíssima sensação, forte demais para o coração de criança. Embora jovem, o garoto sabia o que era o Corinthians. Era o time do homem que se sentava, acompanhado do filho, em frente à TV aos domingos. Já tinha visto a alegria do pai ao comemorar o título da mesma competição no ano anterior. Anteriormente, em 95, a final do Campeonato Paulista coincidiu com a data da festa de aniversário do menino, e o Corinthians venceu o time de verde na prorrogação. Metade da sua família, a parte palmeirense, teve de aguentar suas gozações na festa, apesar de ele ainda não saber a imensa proporção de um derby paulista.

Até aquele jogo de 1998, porém, o futebol ainda não tinha contornos significativos ao menino. Sabia que o Corinthians era o campeão dos campeões, já vira títulos e derrotas, mas faltava algo que simbolizasse ser um torcedor. Algo que dominou o seu coração àquele dia. O sofrimento.

Como se não bastasse, a Portuguesa marcou o seu segundo gol na partida, voltando a estar na frente no placar. Não somente a rede corintiana foi estufada, mas também, com o gol, o inocente coração do menino apertou. Apertou tanto que a dor ganhou lágrimas, inicialmente incompreendidas pelo pai fanático, que brigou com o filho por vê-lo em desespero. A mãe, prestativa, logo o fez tomar água com açúcar, para que se acalmasse.

A dor foi tamanha que o amigo de seu pai, torcedor tricolor, se compadeceu e, pelo que a memória permite lembrar, desejou rapidamente que o Corinthians amainasse o sofrimento do menino. Mas por mais que o time tentasse, a derrota era iminente. A não ser por uma ajuda dos céus.

Foi então que num lance na grande área da Lusa, um cruzamento é cortado pelo zagueiro. Mão na bola, indicou o árbitro. Confusão no campo. Esperança no coração do menino.

Novamente, pela segunda vez naquela tarde de 1998, o volante colombiano Fred Rincón assume a responsabilidade de fazer o gol de empate que levaria o Corinthians à final. O primeiro gol que o menino implorou a Deus. A locução do radialista entrou por dentro da corrente sanguínea do menino, que, ao ouvir “GOL! GOL! GOL”, caiu em lágrimas de novo. Chorou, desta vez, de alegria. Chorou de paixão pelo Corinthians. Paixão, um sentimento que foi criado durante as tardes de domingo, sentado no sofá, de frente para a televisão, ao lado do pai.

O Corinthians foi à final, mas não levou o título, o que não diminui a importância daquele jogo e de tantos outros.  Porque pouco importa para o garoto – hoje homem – a galeria de troféus, o estádio e os craques trajados em preto e branco. O que fica do Corinthians é muito maior do que as lágrimas de dor de criança são capazes de dizer.

O Corinthians é um elo entre pai e filho. Filho e pai.

Carestia de perdão

Nem os vocais inconfundíveis de Anthony Kiedis são capazes de fazê-lo se perdoar pelo erro involuntário. Um erro que o fez perder as diretrizes.

Reunido de amigos, sempre toca no tema, faz questão de que todos, não somente a si próprio, saibam como foi feliz numa época em que sentiu o amor vir de terras interioranas. Desde que aquele tempo se findou, com um término do namoro não-namoro – pois ele nunca se propôs a isso -, vive se contradizendo, abraçando noturnas felicidades momentâneas e arrependimentos ao nascer do sol. Mesmo que negue veementemente, ter hesitado em pedi-la em namoro é seu lamento maior, que, hora ou outra, machuca a alma.

Pega o violão e destrincha alguma canção de coração partido. Os acordes não saem perfeitos, muito menos o canto. Isso, porém, pouco importa. Não é artista, mas tem mente criativa, desinibida de limites, visionária. A música limpa a sujeira do dia a dia, da rotina, que sempre o desanimou. Na atual conjuntura, ao descobrir que o ser humano joga sujo, é egoísta e traiçoeiro, o instrumento o salva dos dias ruins, não raros desde que sentiu a dor por ela ter partido.

Suas convicções e princípios caíram por terra e enterraram a dor trazida pelo cheiro dos cabelos lisos não mais vistos. No fundo, entretanto, as sequelas distraem sua visão, que não é mais capaz de lhe mostrar o verdadeiro sentido da felicidade. Alegria há em seu coração. Passageira, mas há.

Hoje não é sábado, não é dia de garotas fáceis de balada, seu refúgio. É mais um dia jornalístico. O emprego é incrível e, ao mesmo tempo, decepcionante. Faz o que gosta, e bem feito. Na profissão, o céu é o limite. Mas o desgaste escorre pelas suas mãos, que transformam em crônica o gol no Pacaembu, o olhar sem foco que mira um lábio, a solidão.

É carente por natureza. Só sabe o que é a paz quando adormece nos ombros de uma mulher. Qualquer mulher. Mal sabe que o maior prazer que o ser humano pode ter é sentir-se bem consigo próprio. Neste ponto, continua a errar, sem vergonha que o mundo, real ou virtual, veja suas desilusões amorosas.

Hoje não é um dia comum. Quer, mais uma vez, revolucionar a vida, como o seu ídolo fez em Cuba. Para isso, é preciso cortar relações, parar de se doar ao próximo, desistir de construir vínculos duradouros, acredita. O amor é a sua carestia.

Nem que o quarteto californiano criasse um novo hino, seu time conquistasse a América, a dominação socialista saísse das páginas da utopia e ele passasse a viver sem localidade determinada, tudo de uma vez, ainda assim choraria a sua sorte. Perdoe-se!

Diz que não tem medo de nada. Diz que seu estilo de vida é o que há de melhor para ser desfrutado. Diz que nada está fora de seu alcance, à exceção da vontade divina.  Diz que quer viajar ao redor do mundo… Porém, nada disso faz sentido sem a capacidade de transformar as 24 horas do dia em poesia, como costumava fazer em um tempo quando autoperdão não era tema esperado pelos olhos do público de suas crônicas.

Ode à Guitarra

Tocar guitarra com sua banda era o maior prazer de Hêndrico. Desde a pré-adolescência, quando começou a escutar seus ídolos da música, o instrumento passou a ser o seu bem mais valioso. Já há dez anos como músico amador, sonha conseguir que uma gravadora se interesse pelo som de sua banda, para que possa sair de sua terra natal, um povoado do interior da Arimandia, e excursionar pelo mundo como um rockstar.

Depois de inúmeras audições, porém, nenhuma gravadora demonstrou apoiar a banda de Hêndrico, que já era famosa no meio musical do povoado por ser presença garantida nas noites de sábado, quando tocava no palco da praça principal da cidade. Cansado da desilusão musical, Hêndrico, durante um ensaio de sua banda, destruiu sua guitarra, da mesma maneira que famosos guitarristas fazem com o instrumento quando terminam de tocar uma canção pesadíssima. A loucura se abateu sobre o jovem músico. Era o fim do sonho musical.

A banda, pois então, entrou em recesso por tempo indeterminado, até que Hêndrico conseguisse outra guitarra. Mas ele não estava disposto a isso. Música, a partir do momento que a guitarra se chocou ao chão, era arte para se apreciar, não mais para fazer. E foi assim até que veio a depressão.

No povoado de Hêndrico, guitarras não eram muito comuns. Poucos eram músicos, e os que eram tocavam instrumentos menos estridentes. Conseguir uma guitarra nova não seria possível naquele lugar. Hêndrico tentou mudar de instrumento. Improvisou uma bateria com percussões mais simples. Não funcionou. Tentou o contra-baixo. O som do grave instrumento não era gritante, então complementou-o com pedais de distorção. Mesmo assim, não deu certo, pois o feeling era completamente diferente. Hêndrico precisava fazer um power chord novamente, solar, criar riffs que marcassem a vida das pessoas. Só a guitarra o permitia isso.

Quando parecia estar no limite de sua sobrevivência, deprimido pela falta de uma guitarra em seus braços ou que simplesmente pudesse ver e ouvir frente a frente, uma notícia surgiu. Mas como uma faca de dois gumes. Sua banda favorita, a maior influência de sua vida, anunciava um disco novo, porém, acústico. Era o seu fim.

Fugir e buscar uma salvação pelas terras de Arimandia foi a sua saída. Sem dizer adeus, disparou pelo mundo. Antes de deixar o seu povoado, no entanto, foi convidado para um grupo musical. Tocaria violão… numa roda de pagode. “Quem sou eu? Perdi minha identidade, minha honra!”, pensou Hêndrico, enquanto chorava ao se recordar de sua guitarra.

A busca por uma guitarra não era meramente um capricho pessoal. Hêndrico precisava sentir a alegria de viver novamente. Sem o instrumento de seis cordas, nada fazia sentido. A música que sobrava, com vozes guias baratas, sem explosão de sentimento, artificial, era atordoante para ele.

Depois de meses ausente de casa, Hêndrico enviou uma carta à sua família. Dizia que, no coração de Arimandia, encontrou um mundo novo, onde foi possível recuperar a felicidade. Junto da missiva havia um CD e uma foto. O disco continha uma única faixa, ininterrupta, de 80 minutos. Até hoje, se trata do maior solo que se tem notícia. Sem vocais, sem bases, sem acompanhamento. Somente a guitarra de Hêndrico. Na foto, ele acariciando a razão de seu viver, a salvação, o sorriso do dia a dia, aquilo que o livrou de uma vida de amargura: uma Fender Stratocaster.

Pássaros Negros

As bebidas amargavam na geladeira pela terceira semana. Não que ele fosse de se embriagar, mas as comprou para que fossem desfrutadas em ocasiões quando a falta de perspectiva rondava sua alma. Mesmo que pareça pesaroso, isso não se compara às vezes quando pediu para não acordar na manhã seguinte. Pedido, felizmente, nunca atendido, pois gastar desejos com vontades momentâneos não valeria a pena.

Balançava e tremia através do ar frio das quentes tardes ensolaradas. Nem que mil sóis resplandecessem simultaneamente sentiria o calor da fortuna, o ferver do sangue e a energia para dispêndio. Eram lembranças de um tempo quando estava rodeado de vidas amáveis, quando não era culpado por algo que não cometeu, quando via o reconhecimento transfigurado em abraços.

Desde que perdeu o horizonte, decidiu que em todas as vezes que perdesse o controle das emoções, ao invés de desejar o sumiço, faria algo que ocupasse corpo e alma. O jardim de casa, nunca antes cuidado, foi o local escolhido para liberar os temores. Assim, começou a cavar. Cavava somente nos dias de desesperança. De pouco em pouco, sem muito esforço, cavava.

Enfim, havia um imenso buraco em seu quintal. Até pensou em transformar a “obra” em uma piscina, mas desistiu da idéia, pois não foi concebida com essa intenção. O buraco era tão grande que resolveu parar de estendê-lo. Ficou com medo de que a vizinhança, nunca muito amiga, percebesse e, consequentemente, o interrogasse o porquê de tê-lo feito.

A vida seguiu. Para sua surpresa, melhor do que o esperado. Passou inúmeros dias sem a desolação, a insegurança e a solidão. O vínculo social cresceu. Tudo parecia que estava no caminho de se encaixar. E até havia esquecido o buraco no jardim de sua residência.

Quando tomou coragem para encarar a verdade que tinha feito em seu jardim, uma surpresa. Bem ao fundo do buraco havia uma família de pássaros negros. Ele não entendeu como os pássaros haviam chegado até ali e por que teriam escolhido aquele lugar para viver.  Resolveu deixar as coisas como estavam, pelo menos por enquanto.

Na mesma noite, teve um pesadelo e, ao acordar, viu que um dos pássaros batia o bico incessantemente em sua janela. Espantou a ave e voltou a dormir. No dia seguinte, viveu um de seus piores dias de trabalho de toda a sua carreira. Durante o almoço, num restaurante a céu aberto, pensou ter visto um dos pássaros em uma das árvores. Não deu muita importância e seguiu com o dia.

O carro quebrou. Tomou chuva enquanto esperava pelo ônibus. Ao chegar em casa, descobriu que não havia energia elétrica em sua região. Estava só. Dormiu no sofá, com a mesma roupa do trabalho. Acordou de madrugada com um telefonema. Do outro lado da linha, soava um “não”. Pensou em argumentar, mas sabia que nada que tentasse mudaria alguma coisa. A vida voltava a ser ruim.

Bebeu todas as garrafas que estavam na geladeira. Não eram muitas. Apenas o suficiente para passar o tempo sem esplendor em que entrara. Dormiu ao relento desejando não acordar na manhã seguinte. O controle das palavras já havia expirado, falava o que não devia. Pedia o fim de sua existência. Sonhou com os pássaros negros o levando para o fim de sua mediocridade. Eles o engoliam, e a dor era tranquilizadora, pois ele estava no caminho de encontrar o seu fim.

Com terra nos lábios e nos olhos e o frio que cortava a sua pele, acordou a sete palmos da terra, dentro do buraco. Ao seu redor, somente os pássaros negros com seus maus agouros. Correu como um louco, e os pássaros voavam em sua direção, perseguindo-o. Trancou a porta de casa e chorou apavorado. Ajoelhou-se em frente à Bíblia Sagrada e pediu perdão. Desde então, nunca mais viu os pássaros negros. Nunca mais desejou a morte.

Categoria M

Dominar a máquina era o que sempre quis. Queria tanto, mais tanto que passou anos sofrendo por não ter a licença que o permitia “voar” pelos asfaltos de sua cidade, lugar que tinha tudo, mas nada próximo ao seu lar. Portanto, dirigir um carro era, além de benéfico a sua saúde frágil, vital para aproveitar a juventude, que parecia ir embora cheia de distâncias nunca percorridas.

Toda vez que se sentava no banco do motorista, girava a chave e engatava a marcha, a liberdade invadia seu coração. Era uma sensação única, de poder, de alegria. Quando o veículo partia em direção às ruas tomadas pelo transporte público exaustivo, sentia que estava deixando pra trás os problemas, a cobrança e os desprazeres da vida comum. Para tanto, porém, levou anos até conseguir esse sentimento renovador.

Ao todo, foram cinco reprovações no teste de direção. Por cinco vezes, sentiu-se o pior homem da face da Terra. E, às vezes, sentia que não era um homem. Todo o dinheiro que sobrava de seu humilde salário de comunicólogo era investido nas provas de volante. Do primeiro dia na auto-escola ao último, gastou o equivalente a três carteiras de motorista. Quando, enfim, foi aprovado no exame, já tinha se formado na primeira faculdade e iniciava a segunda.  Neste caso, diferentemente da primeira vida universitária, não precisaria mais de carona dos colegas de classe, pois a sua máquina o estaria esperando ao término de todas as noites estudantis.

Entretanto, assim que recebeu a carteira de motorista, teve uma surpresa. Onde deveria estar indicando categoria B havia um M. A auto-escola não soube responder porque do M estar lá e disse que não deveria tentar descobrir. Claro, já tinha feito inúmeras tentativas para obter a carteira, por que haveria de procurar problemas agora que a tem?

Sem tempo a perder, aproveitou ao máximo os dez dias que teve o veículo em suas mãos. Foram somente dez bem aproveitados dias, nada mais que isso. Ao primeiro sábado à noite, dirigiu sem direção, percorreu a cidade, descobriu lugares inimagináveis. Somente ele e o cheiro da gasolina, ninguém mais. Por incrível que pareça, foi um dos dias em que menos sentiu a solidão. Sentia apenas a si próprio e nada mais, e assim estava bom.

O carro, do pai, era tudo que tinha. Com ele, a auto-estima cresceu. Numa noite, passou na casa da garota dos seus sonhos e a convidou para sair, sem intenções misteriosas. Para sua surpresa, ela aceitou sem divagar. Naquela noite, quando não se esforçou para agradá-la, o banco traseiro foi a superfície do maior dos prazeres entre dois humanos. Tudo o que quis, foi conquistado em dez dias.

No dia seguinte após esse período de vida alucinante a 120 Km por hora, todos descobriram o segredo da categoria M da pior maneira possível. Era noite, e ele refletia sobre a sua existência, no carro, óbvio. Para chegar ao outro lado da cidade, era necessário atravessar uma das muitas pontes que transpassavam o rio imundo. Horas antes, a garota dos sonhos disse que o que queria era uma noite apenas e nada mais, que não tinha sentimentos, apenas tinha sido acometida pelo desejo causado de sua abstinência sexual em que vivia.

Ao soar da guitarra estridente que estourava os autofalantes do carro, acelerou como nunca havia feito. Pisou no acelerador até o fundo, com os dois pés. Sobre a ponte, perdeu o controle do automóvel, que derrapou por todas as faixas da via, até destruir o guard rail. Ele afundou sob as águas do rio com seu veículo. Não se sabe se tentou emergir ou não. A carteira de motorista com a categoria M, categoria da Morte, dado apenas a motoristas suicidas, geralmente homens desequilibrados, foi a única coisa encontrada na manhã seguinte às margens do rio que cortava a sua cidade de desilusões.

Os dois desejos que tanto queria sentir em seus braços, o carro e a garota, eram tão intensos que, ao entrarem em conflito, atropelaram o seu autocontrole. O levaram para as profundezas da vida.

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