Jornal dedicado à carreira pública regionaliza o noticiário

Por @DuVasconcelos, @Fradimmarcelo e @Sismone

O jornalismo segmentado não é suficiente para atender a demanda de um público específico. O segredo é a regionalização do noticiário, afirma o diretor da sucursal de São Paulo do Grupo Folha Dirigida, Antônio Steter. Há 25 anos no mercado, a Folha Dirigida, jornal voltado à carreira pública, descobriu que, embora o interesse do leitor seja o mesmo em qualquer lugar do país, o noticiário deve se adaptar ao público de cada região. “A regionalização fez com que o grupo assumisse a liderança deste segmento em todo o país, inclusive no Estado de São Paulo, onde já havia um jornal voltado à carreira pública antes do nosso.”

O interesse da população pela carreira pública não é novidade, uma vez que a chance de um emprego estável e ascensão profissional são características do funcionalismo. O papel do jornalismo especializado em carreira pública é transformar esta oportunidade de emprego em informação jornalística. “Nossa linha editorial prima pelo conteúdo jornalístico. Não é pegar um edital de concurso e publicá-lo, não é um diário oficial. O diferencial está na antecipação da informação”, explica Steter.

Portanto, quando um órgão público demonstra interesse ou abre processo de licitação para contratação de organizadora, a Folha Dirigida noticia. “Como há um número enorme de pessoas que querem ingressar à carreira pública, é preciso que o candidato se prepare para as provas. Muitas vezes há um período curto entre a publicação do edital e a prova”, afirma o editor Fernando Cezar Alves. Desta maneira, a informação antecipada faz com que o candidato inicie os estudos muito antes da publicação do edital.

Fernando Alves diz que a pauta do jornal não se limita a acompanhar o processo do concurso, da sua divulgação ao resultado final, mas também se manter ao lado do candidato no que for necessário, caso seja constatada alguma irregularidade. “O concurso é um processo de certa forma técnico. Procuramos fazer matérias que fogem um pouco desta lógica, mas que sejam de interesse do leitor. Por exemplo, se for sair um edital para determinado cargo, procuramos ouvir quem já trabalha nesta área para que ele explique baseado em sua experiência como ela é aos futuros candidatos”, diz Alves.

Segundo a repórter Eliane Anjos, o jornalista desta área deve conhecer os órgãos públicos e suas funções; acompanhar a agenda das autoridades, promulgação de decretos e leis; descobrir o que tem sido feito para valoração do funcionalismo; e não se prender ao oficialismo, como confrontar informações de sindicatos, órgãos, organizadoras e servidores.

“A linha editorial do jornal independe do governo, dos cursos preparatórios e das organizadoras. Não temos vínculo com ninguém. Contratou sem concurso, o jornal denuncia e faz movimento contra isto”, diz Steter. Segundo o diretor, o grupo planeja promover debates entre autoridades e sindicalistas e realizar seminários acerca do funcionalismo. “A função do jornal é trazer, dentro do nosso negócio, este debate à sociedade”, conclui Steter.

O Carnaval da Crise… de Criatividade

Enfim, o ano começou. Então, tudo que você disse que faria em 2009 e ainda não fez, está perdoado. Porque no Brasil é assim, o país só entra no ritmo do mundo depois de passar pelo ritmo do samba. Agora, não há mais desculpas. O ano realmente começou.

O maior símbolo do carnaval brasileiro é o desfile das escolas de samba. Sim, aquela avenida repleta de pessoas fantasiadas, cantando, chorando, sambando (ou tentando), sorrindo etc. E as enormes alegorias produzidas nos mínimos detalhes que chegam até a emitir som e parecem ter vida própria. Não esquecendo de falar das mulatas (e que mulatas!) que, por si só, já são um show a parte.

Tudo parece ser tão maravilho no carnaval. Mais tão maravilhoso que a Rosas de Ouro fez de seu enredo uma ode à festa popular (“Bem-vindos à Fábrica dos Sonhos”), que conta os bastidores da produção do carnaval.

Infelizmente, esse espetáculo todo fica apenas na aparência. O desfile das escolas de samba, seja no Anhembi ou na Sapucaí, maravilha apenas dois públicos: aquele que desfila e aquele que acompanha no Sambódromo.

A transmissão da Globo coloca qualquer um para dormir. Ainda mais quando a emissora escala uma equipe de reportagem nada carnavalesca. No Rio, por exemplo, Cléber Machado era o locutor e Glenda Kozlowski, a comentarista!

Nenhum problema se a transmissão fosse de um Fla-Flu. Mas, se tratando de samba, não dá. Eu poderia escrever linhas e mais linhas sobre essa e outras lambanças, mas, como não era Fla-Flu, não assisti aos desfiles. Dormi.

A emissora da família Marinho não ajuda na transmissão, porém, não é toda culpada. Pela TV, os desfiles são todos iguais. Os sambas-enredo, as alas, a bateria. Uma escola é igual a outra. Um ano é idêntico ao outro. Passa ano, entra ano, no Carnaval, nada muda. Em nove, dez horas de transmissão por noite, ninguém distingue um samba do outro. Caso a Globo coloque o taipe do carnaval passado, todo mundo assiste na boa, acreditando que é ao vivo, em tempo real.

Graças aos mestres carnavalescos, todo desfile segue um padrão. Dificilmente um samba-enredo cai nas graças do povo, se torna hit. E, complementando, um samba originalmente de 5 minutos, no desfile dura uma hora. Uma longa hora no mesmo ritmo, sem nenhuma alteração. Junte todas as escolas de samba, assim temos uma longuíssima noite com a mesma música.

E não é por falta de dinheiro que o carnaval das escolas de samba virou essa mesmice de sempre. Segundo a “Folha de S. Paulo”, O Prefeito Gilberto Kassab (DEM) quer anistiar uma dívida de R$27 milhões das escolas do grupo especial – vou dar a ideia para o pessoal da minha “comunidade”: ninguém paga mais imposto, quem sabe ganhamos a anistia da prefeitura. No Rio, quem salvou o carnaval foi o Presidente da República. Lula convenceu a Eletrobrás a investir R$3 milhões. E a Prefeitura e o Estado cederam aproximadamente R$10 milhões, juntos. Não é a toa que é considerado o carnaval mais luxuoso do país.

No fim, de festa o carnaval se torna competição. A apuração é o momento mais previsível de tudo isso. Os desfiles são parecidíssimos, mas sempre as mesmas escolas vencem. Por quê? Por nome e (aposto que rola) por grana.

Certas escolas nunca tiram 10. Já outras quase nunca tiram menos que 10. É a tradição, característica maior do carnaval. De tão tradicional que se tornou que não há mais espaço para surpresas, ou para a criatividade.

Dificilmente alguém odeia o carnaval. Mas, do jeito que está, é difícil amá-lo. Há muitos pontos que deveriam ser revistos. Muito dinheiro, pouco fantasia, mais do mesmo. Curtir os desfiles, só na avenida ou na arquibancada.

Acima eu me referi ao carnaval como festa popular. Felizmente, ainda é. Já os desfiles, há muito tempo, não são mais. São da elite. Uma simples fantasia de passista não saí por menos do que algumas centenas de reais. E fantasias de destaques (como aqueles trajes de banho que as mulheres vestem) custam um carro. Na Bahia, não é diferente. O valor do abadá é superior a uma passagem de ida e volta para os Estados Unidos, país onde a mais recente crise econômica se iniciou.

Já a crise de criatividade se instalou, há anos, e parece não ter como recuperá-la das mentes dos carnavalescos do Brasil.

PS: Com certeza esse foi um dos meus textos mais ridículos até o momento. Mas há um ponto positivo nele: se o carnaval continuar como está – e certamente continuará -, não precisarei escrever um novo texto. Pois esse é atemporal.

O Esporte necessita de Investigação

Com o término do Campeonato Brasileiro, o futebol nacional foi presenteado com duas novidades. A primeira foi a conquista do tri-campeonato consecutivo pelo São Paulo. A segunda, que causou um grande estardalhaço e, assim, acabou ofuscando a primeira, foi a contratação pelo Corinthians do atacante três vezes eleito o melhor do mundo, Ronaldo Nazário, o Fenômeno.

A vinda de Ronaldo para o Corinthians iniciou uma guerra fria entre jornalistas e emissoras de TV abertas. Os egos, superegos ou its (seja lá o que for isso) tomaram conta das mentes do jornalismo esportivo. Caso a imprensa ainda não tenha notado, o telespectador não se importa com quem realmente deu o furo da contratação do Fenômeno. Ao invés de discussões sobre algo pouco relevante, o público quer respostas de acontecimentos um tanto recentes na história futebolística do país, com a Máfia do Apito.

O jogo que deu o título de campeão brasileiro de 2008 ao São Paulo foi alvo de suspeita de um ressurgimento da máfia. O árbitro escalado para a partida teria sido vítima de suborno de desconhecidos para manipular o resultado da partida. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) resolveu substituí-lo, para que não houvesse nenhum tipo de suspeita do resultado final.

Em 2005, a história da máfia do apito teve seu apogeu. O juiz Edílson Pereira de Carvalho, que havia apitado 13 jogos do Brasileirão, foi descoberto e confessou o crime de manipulação de resultados. Assim, as 13 partidas do campeonato sob o comando de Edílson foram remarcadas. Evidentemente, os resultados não foram os mesmos. Fato que causou transtorno entre clubes, CBF, jornalistas e torcedores. No mesmo ano, a sério B do Campeonato Brasileiro também foi vítima da máfia do apito.

A não ser o caso do Brasileirão 2005, os outros campeonatos não obtiveram respostas. Esperar que a CBF e outras instituições revelem respostas não é dever do jornalismo. Falta investigação na área esportiva.

Ronaldo foi protagonista de outra história de grande repercussão do futebol brasileiro. O ano era 1998; o local, França; evento, final da Copa do Mundo contra a dona da casa. A seleção brasileira fez uma das partidas mais vergonhosas de sua história. O resultado disso tudo: festa nas ruas de Paris.

Já se passaram mais de dez anos e ainda ninguém sabe exatamente o que aconteceu com o Fenômeno na véspera da partida, se jogou sem condições, se houve briga no vestiário etc. Há quem diga até que aquele jogo foi comprado.

Nesses momentos que o jornalismo investigativo deveria cumprir o seu papel. As áreas de polícia, cidade e política são as mais abastecidas com investigação jornalística. O esporte produz mais e mais assuntos sem respostas. Se no século 21 a máfia do apito comandou campeonatos, quem garante que ela já não existia desde os anos 60, 70 quando o futebol ainda estava se profissionalizando?

Enquanto o combate entre egos e o entretenimento (assunto que fica para um futuro texto) continuam nos canais abertos, e o ceticismo é deixado de lado, pelo menos na TV fechada se encontra um bom jornalismo desportivo. Ainda sem a tão sonhada investigação, mas feito de forma séria por ótimos profissionais e não por rostinhos manjados na televisão.

PS. A Revista IMPRENSA deste mês, dezembro, vem com uma entrevista de Paulo Vinícius Coelho, o PVC. Na humilde opinião deste blogueiro, PVC está entre os melhores jornalistas da área esportiva do país. Confira!

Sequelas

Passei muitas noites de domingo de minha pré-adolescência assistindo a Mesas-redondas. Aqueles programas em que jornalistas e futebolistas discutem a rodada, o que de melhor aconteceu, projeções do futebol, histórias de atletas.

Deixei esses programas de lado depois que atingi a adolescência – fase da vida que, em minha opinião, começa aos 15 anos. Pra dizer a verdade, não consegui me distanciar tanto assim. Sempre dou uma olhadinha neles. Geralmente as melhores matérias de futebol circulam nas noites de domingo, ou seja, nas mesas-redondas.

Domingo passado assisti algumas partes do programa da Gazeta, que por sinal, o nome é homônimo do gênero, o Mesa-redonda. Um quadro chamou a minha atenção: a Saga Corintiana.

O quadro relata os episódios da mais triste história do Corinthians, a Série B. Bom, felizmente, isso já é passado (“o Timão voltoouuu”). Dentre tantas histórias, uma me comoveu profundamente.

Era sobre a vida de um garoto que havia se mudado recentemente com sua família para São Paulo. O que há de incrível nisso? Até aqui, nada. Existem inúmeros famílias que vêm para a terra da garoa normalmente. Mas é que esse garoto não veio do Paraná, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, da Bahia, ou qualquer outro estado brasileiro. E sua família não se mudou para Sampa com o intuito de melhorar a situação socioeconômica.

Eles cruzaram o Atlântico. Vieram atrás de paz.

Esse iraquiano de 10 anos deixou sua terra natal, no Oriente Médio, passou a viver em uma sociedade totalmente diferente, em busca da paz. Logo que aqui chegou, simpatizou-se pelo Corinthians, provavelmente por empatia com a torcida que sofria com o time na segunda divisão.

Em entrevista ao repórter da Gazeta, ele dizia mais ou menos assim: “A ‘América’ jogou bomba. Muitas! Eu vi muitas bombas caírem perto de onde eu morava.” E o repórter diminuindo o tom da pergunta: “Alguém da sua família se machucou?” O garoto não respondeu oralmente. Não conseguiu. Apenas balançou a cabeça para cima e para baixo.

Agora, eu observo a massa que vai aos estádios e sei que cada um daqueles rostos esconde uma grande história. Eles se unem em torna de um ideal comum. Apóiam o time em busca da felicidade. Mesmo que momentânea.

Da mesma forma que eu tenho uma história para contar, quem me lê também tem a sua. Talvez seja isso que eu queira com o jornalismo… conhecer histórias.

Para o garoto, os Estados Unidos da América são a América. Não só para ele. Não duvido que a grande maioria dos povos do oriente também se dirija assim para a maior potência do mundo.

No Brasil, sua família, de certe maneira, encontrou a paz. No entanto, os ecos do Iraque não os deixaram. Toda vez que o Timão marca um gol e os rojões estouram, ao invés de comemorarem, se escondem, procuram abrigo. Confundem com o barulho de uma bomba caindo em Bagdá. Trauma de guerra.

A Lição de Interlagos

Direto ao ponto: torci por Lewis Hamilton.

Por quê? Dentre tantas respostas, prefiro as mais óbvias. Desde pequeno (tempos de Senna), sempre torci pela McLaren. Ou seja, sou um anti-Ferrari. Essa equipe de Fórmula 1, a mais famosa de todas, sem sombra de dúvida, tem seus admiradores em qualquer parte do mundo. E também tem suas falcatruas em qualquer circuito do mundo. Quem não se lembra dos tempos de Barrichello por lá?

Esse texto nada tem contra fãs da Ferrari. Somente contra a mídia. Contra Galvão Bueno e companhia.

Antes disso, um pouco sobre Felipe Massa. É um grande piloto. Ainda não é excepcional, mas faz bem o papel do piloto de equipe de ponta. Agora, Massa não é “Brasil”.

Acredito que o esporte individual (embora a F1 não seja) trás méritos ao atleta, não ao país. Torcer pelo Massa é diferente de torcer pela seleção do Dunga. No esporte coletivo a equipe representa o país. No individual – a F1 cabe muito bem nesse caso, já que pilotos geralmente são de países diferentes de suas equipes -, quem está lá é uma pessoa isolada, que ganha com méritos próprios. Então, torcer na F1 é torcer pelo conjunto de piloto e equipe.

Felipe Massa um dia será campeão – e torço por isso. Mas lhe faltam algumas qualidades que o piloto inglês possui, como humildade. Um jovem negro, sem experiência, que disputou um título logo na primeira temporada e, infelizmente, deixou escapar na última corrida, esse é excepcional!

Evoque as últimas voltas da corrida em Interlagos. A chuva caí a quatro ou cinco voltas para o final. Todos os pilotos vão trocar os pneus de asfalto seco pelos de chuva. Todos não, menos Timo Glock, da Toyota. Com isso, Hamilton e Vettel, piloto que vinha no encalço do inglês, perdem uma posição ao saírem dos boxes para o alemão da Toyota. Faltando duas voltas, Vettel ultrapassa Hamilton, que perderia o campeonato naquela posição. 700 metros para a chegada, o corajoso Glock, que já vinha bem lento durante as últimas voltas por não ter substituído os pneus, sai do traçado e fica para trás de inúmeros carros, inclusive da McLaren do inglês. Desse modo, Hamilton cruza a linha de chegada em 5º e é campeão.

Glock quase teve o seu dia de herói tupiniquim. Entretanto, a imprensa preferiu classificá-lo como o “causador da derrota de Massa”. Pensem um pouco, Caso Glock tivesse trocado pneus nada disso teria acontecido. Ele estava atrás de Hamilton. Só ficou à frente porque resolveu encarar 10 quilômetros (3 voltas, mais ou menos) sob chuva com pneus errados. E quase conseguiu.

Li toda a edição de esportes do jornal O Estado de S. Paulo de segunda-feira, pós corrida, e nenhum dos textos dizia que o desconhecido piloto da Toyota quase deu o título ao Massa. Só o trataram como vilão.

“Gavião” Bueno conseguiu fazer pior. Em seu programa “Bem Amigos” na noite de segunda no canal pago SporTV, o narrador global fez de tudo para apontar os erros da Ferrari durante o campeonato. Erros que tiraram pontos de Felipe, em conseqüência, que lhe tirou o título. Quem não assistiu a corrida e se informou pelos noticiários deve ter acreditado que Hamilton deu sorte. Sendo que, na verdade, quem deu sorte foi Massa, pois a chuva que caiu no autódromo perto do fim da corrida quase lhe deu o título.

Ninguém realçou a astúcia de Glock ou a competência de Hamilton por não ter desistido quando tudo parecia perdido. A imprensa esportiva nunca me deu tanto desgosto como agora. No futebol é até aceitável ouvir/ler jornalistas defendendo o time que amam. Na F1, não!

Interlagos me mostrou como em segundos tudo pode mudar. Às vezes desistimos muito cedo e não lutamos até o fim para ver o que os fados nos guardam. O esporte definitivamente é o melhor exemplo de persistência. Esse dia também marcou, para mim, uma maior desconfiança ao noticiário desportivo.

Me desculpem jornalistas e comentaristas, como Juca Kfouri, Jorge Kajuru e Neto, que dizem que a principal modalidade automobilística não é esporte, mas, convenhamos, já há algum tempo, a Fórmula 1 dá muito mais emoção que a seleção canarinho.

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