Jornalista perfila músicos que ganham a vida no centro de São Paulo

Eles não têm fãs, não foram engolidos pela indústria nem contemplados por leis de incentivo à cultura. Mas amam a música, pois ela lhes dá de comer e os fazem esquecer os problemas impostos pela desigualdade social. Compasso urbano: a vida de quem transforma asfalto em palco e necessidade em arte, primeiro livro do jornalista Ariel Cahen, faz jus ao nome.

O livro é uma coleção de perfis – sete ao todo – de artistas que se apresentam no centro de São Paulo. A cidade, conhecida por ser o centro financeiro do país, convive diariamente com manifestações culturais, que entram em “conflito” com o dia a dia urbano e caótico dos paulistanos.

Os músicos retratados na obra são seres humanos simples que utilizam o dom artístico para obter algum dinheiro que lhes permita arcar com as necessidades básicas de suas famílias. A maioria não estudou música. Alguns, aliás, nem ao menos têm instrumentos convencionais. Mas nada disso os impede de fazer seus “shows”. A não ser a chuva, claro.

Os perfis não são extensos. Em algumas páginas, o jornalista enfatiza a origem humilde dos músicos, bem como suas sonoridades musicais e, sobretudo, a paixão pela música. Esta, a responsável por lhes dar o sustento de suas vidas. Além de fácil leitura, o livro vem acompanhado de um CD-ROM, que traz um documentário e fotos dos músicos.

Numa época em que o conceito de “indie” vem se perdendo, a palavra parece ganhar algum sentido ao ser associada às histórias apresentadas. Mesmo sem nenhum apoio, alguns grupos conseguem produzir e vender seus CDs e DVDs aos passantes.

Mais do que retratos de músicos de rua, o livro apresenta uma considerável parcela de artistas que não interessam ao mercado e que não foram contemplados por projetos e leis governamentais. Até mesmo o trabalho artístico nos mostra o quão desigual nossa sociedade se tornou.

 
Obs: a quem interessar, o livro está disponível pelo site da Livraria Saraiva.

Linkin Park flerta com experimentalismo em álbum conceitual

Derrube seus muros. Este deve ser o lema do Linkin Park toda vez que entra em estúdio para gravar um novo álbum. O mais recente lançamento da banda, A Thousand Suns, faz com que as mudanças presentes no álbum antecessor, o platina duplo Minutes to Midnight (2007), pareçam passos de criança em direção ao desconhecido.

Pela segunda vez consecutiva, o produtor Rick Rubin foi escalado para co-produção ao lado do vocalista, rapper, guitarrista, tecladista, mente criativa do Linkin Park, Mike Shinoda. Embora sejam os mesmos nomes envolvidos, os três anos que separam os dois álbuns parecem pouco tempo perto da mudança sonora alcançada pela banda.

Em Minutes to Midnight, o Linkin Park se desprendeu da fórmula convencional do sucesso alcançado até então por seus dois primeiros álbuns, o platina quádruplo Meteora (2003) e o disco de diamante Hybrid Theory (2000), mas as músicas ainda soavam como hit singles. Dessa vez, o desafio, segundo a banda, era criar um álbum que não seria uma mera coleção de músicas, mas que fizesse com que as pessoas o escutassem do início ao fim, como uma narrativa.

A jornada retratada no álbum, o primeiro conceitual da banda, utiliza metáforas de destruição do mundo em uma guerra atômica para simbolizar a autodestruição do ser humano, a partir da perda da inocência passando pela desesperança, mudanças, poder do sistema, clemência a Deus e o retorno para casa, onde podemos nos recompor para iniciar uma nova jornada.

Assim como o segundo disco, Meteora, a eletrônica é praticamente onipresente em A Thousand Suns. Mas as similaridades – se é que existem – param por aí. Neste álbum, o Linkin Park resolveu flertar com o experimentalismo. As canções não respeitam a estrutura musical que consagrou a banda. Diferentemente de Meteora, em que a eletrônica divide as bases com riffs pesados, a guitarra é um mero instrumento de apoio.

Em A Thousand Suns, Mike Shinoda divide boa parte dos versos melódicos com Chester Bennington, não se limitando apenas aos momentos de rap. A eletrônica, apagada em Minutes to Midnight, conduz o álbum, que também conta com o apoio de tambores (“When They Come For Me”), bateria eletrônica (“Wretches and Kings”), coral (“Iridescent”, “When They Come For Me”), vozes simultâneas (“Robot Boy”, “The Catalyst”). E até violão (“The Messenger”).

Fazer com que este álbum tocasse nas rádios também seria um desafio, disse Shinoda, uma vez que não se trata do Linkin Park que se espera ouvir, muito menos o tipo de som característico das rádios. Lançado em setembro passado e com dois singles até o momento, “The Catalyst” e “Waiting for the End”, parece que mais uma vez o Linkin Park se saiu bem diante dos riscos. As duas músicas são número 1 nas paradas de rock da Billboard e, embora o álbum não tenha vendido tanto quanto os anteriores, é, entre os discos de rock de 2010, o mais vendido do ano passado.

Depois da consagração, resta a uma banda optar por se manter numa zona de conforto ou inovar. Parece que a segunda opção faz bem ao Linkin Park, que produziu seu melhor álbum desde Hybrid Theory.

Por dentro da jornada

The Requiem – Poucas introduções são lembradas na história dos álbuns. Esta pertence a esse seleto grupo. O tom da narrativa de A Thousand Suns começa com “Deus salve a todos nós/ Nós vamos queimar dentro do fogo de mil sóis?” entoado por uma voz amedrontadora. Não somente para o álbum, mas também para abrir os shows esse “réquiem” funciona como o primeiro capítulo de um livro. Sem esforço, conquista a atenção de todos. Não haveria início melhor para esta jornada.

The Radiance – Ainda não é hora de pôr os pulmões pra fora. Esta é nada mais que a segunda parte da introdução do álbum. O pai da bomba atômica, Robert Oppenheimer, fala sobre a destruição do mundo já prevista na escritura hindu, a Bhagavad-Gita. O Linkin Park não veio para brincar, não é?

Burning in the Skies – Logo no primeiro canto do álbum, a primeira surpresa. Quem solta a voz é Shinoda. Não é rap. É melodia. O refrão fica por conta de Bennington. Dentre todas as músicas de A Thousand Suns, essa é a mais fácil de digerir. Isso vale tanto aos fãs quanto às rádios. Facilmente o Linkin Park poderia tê-la encaixado em guitarras pesadas, já que a estrutura não foge do padrão. Não à toa, foi escolhida como o futuro terceiro single do disco. A guitarra que corta na ponte e o refrão ganham qualquer um. Pela primeira vez uma música que não explode os ouvidos inicia um álbum da banda.

Empty Spaces – 18 segundos de interligação entre uma música e a próxima.  Explosões, sirenes e tiros. Tudo pela narrativa do álbum.

When They Come For Me – Apenas a 5ª faixa, ou 2ª real canção, e já nos é apresentado o lado mais hip-hop do Linkin Park. Aqui está o primeiro grande sinal de experimentalismo. A bateria e os tambores sustentam um dos raps mais invocados de Shinoda. A letra contém muitas mensagens subliminares, como não ser obrigado a fazer sempre um Hybrid Theory, ser um mero robô da indústria musical e, quando entenderem os seus propósitos, você já ter partido para outros desafios. Uma das melhores canções de hip-hop de todo o catálogo da banda.

Robot Boy – Uma música mais lenta, cheia de camadas texturais, com vozes simultâneas e sem refrão. Shinoda e Bennington parecem cantar juntos de uma maneira que nenhuma das vozes se destaque sobre a outra. Alguns sons abstratos de difícil identificação instrumental, batidas fortes e uma atmosfera mais cativante ao final. O nome desta música, assim como de outras, parece não ter relação alguma com a letra, mas, ao analisar o tema conceitual, faz todo o sentido.

Jornada del Muerto – Nome em espanhol, letra em japonês. Mais um interlúdio. Os versos que se repetem são da letra de “The Catalyst”. Há um trabalho com os interlúdios no álbum, pois nenhum se assemelha a outro. Todos soam únicos e fazem a interligação sem ruídos entre as faixas.
[Atualizado 08/02: Jornada del Muerto é o nome de um deserto no Novo México (EUA) em que foram feitos os primeiros testes nucleares. Em referência a esses testes, Oppenheimer citou Bhagavad Gita.]

Waiting for the End – Desde quando uma balada é fan favorite em um álbum do Linkin Park? Pela receptividade dos fãs de base, com esta música, exatamente no meio do álbum, não tem pra ninguém. Neste disco, até o rap traz inovação. O estilo ragga dá a essa balada uma sensação upbeat. O ritmo, inicialmente lento, incorpora força ao longo dos versos, até estourar com a guitarra pós-ponte. A parte final da música é energizada, principalmente pelos belos dotes vocais de Bennington. Com certeza, um dos pontos fortes do álbum.

Blackout – Experimentalismo em plenitude! Bennington faz um “rap” ao estilo Michael Jackson e, em seguida, desatina a gritar. O que não há de gritaria no álbum, há em “Blackout”. Em vez de guitarras pesadas, o teclado, a eletrônica e o forte bumbo dão corpo à base desta música. Os samples ao estilo Reanimation (álbum de remixes lançado em 2002) na ponte surpreendem. Em seguida, surge outra música. É como se a banda quisesse combinar partes incrivelmente distintas em uma mesma canção. Até se acostumar, assusta.

Wretches and Kings – Geralmente o Linkin Park cria músicas de rock com elementos de hip-hop. Neste caso, parece ser o contrário. O rap de Shinoda soa mais hip-hop do que nunca. A base não conta com riff de guitarra, mas sim com batidas e eletrônica fortes, quase dançantes. O refrão é o melhor do álbum, daqueles que põem a galera pra pular nos shows. Aliás, esta é a música para performances ao vivo. O discurso em tom emocionado do ativista político Mario Savio parece que foi de fato entoado sobre a base da música, e não encaixado. Destaque também para os scratches de Joe Hahn.

Wisdom, Justice, and Love – Martin Luther King Jr. é o “convidado” da vez. O defensor dos direitos de igualdade racial discursa contra a guerra do Vietnã (1959 – 1975) e o uso de armamento nuclear sob acordes de piano.

Iridescent – Esta é uma daquelas músicas que nos dizem que sempre é tempo de esperança. Baseada em piano, arrisco dizer que é a melhor balada já composta pela banda, como também a música mais bonita de todo o álbum. Ou de toda a carreira do Linkin Park. O canto em baixa tonalidade de Shinoda nos versos contrasta com a melodia emocionante de Bennington no refrão. O coral da força para que a música estoure em esperança. Simplesmente, a melhor letra do álbum. Seria o ponto máximo de A Thousand Suns, mas o melhor vem a seguir…

Fallout – Este interlúdio é um “esquenta” para o clima da próxima música. Aqui, Shinoda solta versos de “Burning in the Skies”. E o canto no início do álbum, em “The Requiem”, nada mais é do que o tema da música que vem a seguir, que também é o primeiro single do disco. A narrativa, goste ou não do álbum, foi completamente trabalhada.

The Catalyst – Os melhores vocais do álbum estão aqui. Talvez seja a melhor alternância entre os dois vocalistas desde “In the End” (Hybrid Theory). A eletrônica tem seu apogeu, soando mais em evidência do que nunca e com o solo de scratch na introdução. Mesmo sendo o primeiro single, a estrutura de fácil aceitação não se faz presente. São quase seis minutos de explosão de som! A música também é dividida em duas partes: a primeira, mais eletrônica; a segunda, com piano, quebra de ritmo de bateria e vocais épicos, que explodem em gritos de Bennington. A música é “a catalisadora” do álbum porque foi o ponto agregador de ideias, que deu diretrizes para inúmeras mudanças. O nome A Thousand Suns foi tirado da letra de “The Catalyst”, o momento de maior excelência do álbum.

The Messenger – Depois de uma sequência de músicas baseada em eletrônica, uma última surpresa. Um simples violão e vocais de Chester Bennington. E mais uma vez o vocalista esbanja talento. É um Linkin Park quase acústico. A exceção se faz pelo teclado no refrão. Em paz se encerra a jornada de A Thousand Suns.

Álbum de estreia do Linkin Park completa 10 anos

Assim que Chester Bennington assumiu os vocais do Xero, em 1998, para substituir o então vocalista Mark Wakefield, a banda de Los Angeles resolveu que era necessário mudar de nome. Bennington aceitou o convite de Mike Shinoda, Brad Delson, Joe Hahn, Rob Bourdon e Dave “Phoenix” Farrell para se unir a ideia de criar um novo tipo de fusão de estilos musicais.

Por dois anos, o Hybrid Theory, como se passou a se chamar a banda, recebeu inúmeras negativas de grandes gravadores. Quando enfim assinou um contrato, descobriu que outro nome seria mais útil, uma vez que já havia uma banda com hybrid no nome. Em meados de 2000, meses antes do lançamento do álbum de estreia, “nasceu” o Linkin Park.

Apesar da mudança de nome, a filosofia que agregou os seis músicos continuou a mesma. Em 24 de outubro de 2000, há exatamente dez anos, o primeiro álbum do Linkin Park, Hybrid Theory, foi lançado.

O rap e o rock colaboram há anos. Mas com Hybrid Theory essa junção chegou a um patamar mais alto. Característica marcante do álbum, porém, não o tornou homogêneo. O single de estreia da carreira, “One Step Closer”, logo se tornaria um hino. A gravadora, como revela Mike Shinoda em “Get Me Gone”, do seu projeto paralelo Fort Minor, não apoiava a ideia de uma banda com dois vocalistas, além de estar descontente com a sonoridade do álbum.

Sendo assim, “Crawling” foi escolhida como segundo single, já em 2001. Assim como “One Step Closer”, o rap é figurante nessa canção. As guitarras pesadas cedem lugar a uma balada de refrão intenso. A característica de partes leves e pesadas em uma mesma música ficou eternizada na arte do álbum.

O soldado alado da capa de Hybrid Theory representa a hibridez do som, sendo as asas uma representação de leveza, e o machado, a fúria. O desenho, de autoria do rapper Mike Shinoda, é um reflexo da banda, que seus fãs eternizariam em tatuagens.

O sucesso de “Crawling” fez a banda ganhar um Grammy de Melhor Performance de Hard Rock no ano seguinte. O disco foi indicado na categoria Melhor Álbum de Artista Estreiante. Hybrid Theory foi o álbum mais vendido de 2001 e o quinto mais vendido de 2002.

Ao longo de 2001, “Papercut” e “In the End” foram lançadas como single. A primeira é uma das favoritas dos fãs. Para a banda, “Papercut”, com longos versos de rap, dueto de vocais no refrão e batidas fortes, seria o seu single de estreia, ideia refutada pela gravadora.

“In the End” é a maior responsável pela base de fãs conquistada com Hybrid Theory. A música deu ao Linkin Park seu primeiro single número 1 na parada da Billboard. Devido aos bons frutos do álbum, “Points of Authority” ainda teve tempo de encerrar o ciclo de canções de trabalho.

Disco de diamante nos Estados Unidos, Hybrid Theory é o 26º álbum mais vendido da história da música, sendo o segundo da última década, apenas atrás de 1, compilação dos Beatles.

O álbum produziu um leque variado de músicas favoritas dos fãs, como “A Place For My Head”, “With You” e “Pushing Me Away”. Para a revista Rolling Stone americana, Hybrid Theory é o álbum que “reflete a frustração da vida”. Indispensável para qualquer amante de música.

Linkin Park domina dia do rock no SWU

Mal a banda Pixies havia deixado o Palco Água do SWU (Stars With You) – Music and Arts Festival, as luzes do Palco Ar se apagaram e o telão ao fundo sincronizou imagens ao som de “The Requiem” para receber a atração principal do último dia do evento. Já era madrugada de 12 de outubro quando o Linkin Park, depois de seis anos, voltava a se apresentar no Brasil.

O dia em que o rock pesado foi escalado (Cavalera Conspiracy, Avenged Sevenfold, Incubus e Queens of the Stone Age, para citar alguns) marcou o recorde de público que o festival recebeu – aproximadamente 60 mil pessoas. De longe, a maioria se locomoveu até a Arena Maeda, em Itu, pelo Linkin Park, o mais mainstream dentre todos.

Após a música de abertura, o Linkin Park entrou pra valer com “Wretches And Kings”, também do álbum A Thousand Suns, lançado em setembro e carro-chefe da turnê. A fórmula rap-rock acompanhado de discursos anticapitalista levantou o público, que se mostraria empolgado com as novas músicas.

Em seguida, o clássico “Papercut”, para delírio dos fãs de raiz, e o hardcore de “Given Up” mantêm o frenesi que tomou conta da Arena Maeda. Nessa última, o baixo de Phoenix e a voz de Chester Bennington se mostraram vigorosos.

A esse ponto, e com duas bandeiras do Brasil estendidas no palco, o Linkin Park já havia conquistado o público. Ao tocar uma música não tão pesada, “New Divide”, a entrega dos fãs ficou ainda mais evidente. Apesar de não ser single-rádio no País, Chester Bennington teve um dos melhores momentos de duetos vocais com a multidão.

“Faint” foi muito bem recebida pelos fãs, que também não negaram o lado mais hip-hop em “When They Come For Me”. Surpreendentemente, Bennington e o guitarrista Brad Delson, nesta canção, tocam percussão, enquanto Mike Shinoda despeja rimas. Delson, ao final, ainda toca guitarra e fala ao megafone, ao qual aproveitou seu momento vocal para fazer menção ao Brasil.

De sua primeira passagem no País, em 2004, pra cá, o Linkin Park, além de ter se inovado em dois álbuns, mudou seu comportamento no palco. Os instrumentistas, por exemplo, contribuem com vocais de apoio e não se limitam a seus instrumentos característicos.

Difícil é apontar se era o público que estava mais empolgado, ao ponto de sair do chão com a balada “Numb”, ou se era o vocalista Chester Bennington. Em “Breaking the Habit”, Bennington desceu do palco e cantou o refrão final a cappella ao lado dos fãs, para comoção geral. Mais tarde, se enrolou numa faixa verde e amarela com o nome da banda para cantar “Crawling”.

Houve um único momento em que o público pareceu estar longe da banda, na balada “Iridescent”. Já no novíssimo single “Waiting for the End”, Bennington e Shinoda cantaram, mais uma vez, bem servidos das vozes de seus fãs, que também não faltaram na calma “Shadow of the Day”.

Para a multidão, “One Step Closer” foi o teste de sobrevivência. A Arena Maeda deve ter saída de lugar com essa música, mesmo que por ao menos um milímetro.

Devido ao atraso de quase uma hora do show do Queens of the Stone Age, o bis foi emendado sem pausa. Durante a introdução do single principal de A Thousand Suns, “The Catalyst”, Chester Bennington, de tão à vontade, iluminou o público com um spot de luz. A performance em “The Catalyst” foi mais um ponto alto do vocalista, que estava decidido a não economizar a voz.

Ainda havia tempo para surpresas. Um Linkin Park semi-acústico se apresentou em “The Messenger”. Sentado, Delson trocou a guitarra pelo violão, e Bennington cantou suavemente com a multidão. O momento mais belo de todo o show.

A banda soava unida. Bennington, no entanto, continuou sendo o destaque individual. Desceu do palco para cantar agarrado aos fãs o maior sucesso da carreira, “In the End”. Para fechar a noite, “What I’ve Done” e “Bleed It Out”. O som estava tão forte que ambas fizeram com que alarmes de automóveis que estavam por perto disparassem. A primeira, um hino cantado pela legião de fãs. A segunda, uma festa.

Sem tempo para longas despedidas, já que o DJ Tiësto se apresentaria em seguida no Palco Água, o Linkin Park, depois de tremular a bandeira brasileira, deixou a Arena rapidamente, assim como boa parte do público, saciado após seis anos de espera.

Setlist:

The Requiem (introdução)
Wretches And Kings
Papercut
Given Up (final estendido)
New Divide (intro estendido)
Faint (final estendido)
Empty Spaces (interlúdio)
When They Come For Me
No More Sorrow (intro estendido)
Jornada del Muerto (interlúdio)
Waiting for the End
Wisdom, Justice, And Love (interlúdio)
Iridescent
Numb
The Radiance (interlúdio/ versão piano)
Breaking the Habit (final estendido)
Shadow of the Day
Crawling
One Step Closer (final estendido)
Fallout (interlúdio)
The Catalyst
The Messenger (final estendido)
In the End
What I’ve Done (intro estendido)
Bleed It Out (final estendido)

Linkin Park sem limites em “The Catalyst”

Quando você pensa que nada mais pode te surpreender, que conhece todas as facetas, que já sabe o que está por vir, surge algo que te faz repensar qual o limite da arte. Se anteriormente o Linkin Park já havia se arriscado, agora, com “The Catalyst”, ultrapassou todos os limites do bom senso. Ainda bem!

Sob o teclado sombrio, scratches de Joe Hahn cortam e armam o palco para vocais – cantados, vale ressaltar – de Mike Shinoda, que em seguida compartilha a melodia com Chester Bennington. Não, não é da mesma maneira que estávamos acostumados com o Linkin Park. Que essas duas vozes se completam, não é novidade. Mas, ao cantarem simultaneamente, nos é apresentado um timbre único, o qual o ouvinte até confunde qual das vozes se sobrepõe.

Por ser o primeiro single do disco, é de se esperar algo de fácil aceitação, para que possa alavancar as demais canções. Então, onde foi parar o paradigma verso-refrão-verso-refrão-ponte-refrão? Isso está descartado, assim como algum possível riff de guitarra. Por outro lado, a eletrônica, onipresente, conduz o baixo e dita o ritmo. Se Shinoda canta como nunca cantou antes, o que dizer de Bennington? Talvez seja melhor não dizer nada e apenas ouvi-lo.

E se a sonoridade do single assusta ao primeiro contato, com o ritmo dançante, versos repetitivos e instrumentos se sobrepondo, o melhor fica para o final. Os cantos reflexivos, essência do Linkin Park, transparecem e fazem de “The Catalyst” uma explosão de som. Como a banda uniu dois extremos nessa mesma canção? Provavelmente com o mesmo talento que a fez correlacionar gêneros diferentes no início da carreira.

“The Catalyst”, em suma, é diferente de tudo o que se ouviu e o que se pensava ouvir do Linkin Park. Mas é um começo arrebatador para mostrar que são os riscos que movem a vida, inclua-se aí a arte. Que Deus abençoe A Thousand Suns!

PS: Esse texto foi escrito para o Linkin Park BR (www.linkinparkbr.com), o maior fã site sobre Linkin Park da América Latina. Fui convidado pela equipe para escrever a coluna do site, e o texto de estreia foi esse acima. Inclusive, a resenha foi produzida no mesmo dia do lançamento mundial de “The Catalyst”, 02 de agosto, apenas algumas horas depois, que já foram suficientes para ouvi-la cerca de 30 vezes. O link direto da coluna é esse: http://migre.me/125hb

PS II: Minha intenção era fazer upload do áudio da música, em sua versão integral, com 5’42”. Como visto, não consegui, mas encontrei esse vídeo da versão editada que vai para as rádios. Na versão rádio, a introdução é reduzida (cortando os scratches de Joe Hahn antes do refrão), assim como a ponte (“lift me up, let me go”), e a música termina com o refrão, diferentemente da versão que estará no álbum A Thousand Suns. Apesar das supressões, a essência da música está aí. Aproveite e aprenda a cantá-la acompanhando a letra disponibilizada no vídeo. Quanto ao vídeo clipe oficial, o lançamento está previsto para 26 de agosto.

Linkin Park: sucesso, dor e riscos. E ainda quer mais!

Com Hybrid Theory (2000), nasceu um novo jeito de fazer música, ao unir elementos distintos para criar uma sonoridade desigual. E, assim, um novo ídolo despontou para as massas. Com Meteora (2003), esse fenômeno incontrolável se consolidou no cenário da música pop. Com Minutes to Midnight (2007), todos os estereótipos caíram por terra e os críticos amargaram suas conclusões equivocadas a respeito daquela que seria considerada a banda da década.

Os números não negam. O disco de estréia é o mais vendido do milênio: 25 milhões de cópias, das quais 10 milhões somente nos Estados Unidos, o que o tornou disco de diamante no país (equivalente a 10 vezes platina). Cinco singles do segundo álbum atingiram a primeira posição da parada de rock americana. Feito inalcançado por qualquer outro disco da história da música. Em plena era do download e dos piratas, o terceiro foi o mais vendido no mundo em 2007. Sem contar as vendas por download legal, ou seja, somente o formato físico, em três anos foram oito milhões de cópias comercializadas.

Além de dois prêmios Grammy, uma parceria bem sucedida com o rapper Jay-Z e ter o seu próprio festival de música, estima-se que o seu número de fãs seja algo em torne de um milhão. Então, com tudo isso, o que esperar do maior expoente do rock dos anos 2000, segundo a Revista Billboard, nessa segunda década do século 21?

Linkin Park, um nome que diz absolutamente nada, mas que se tornou sinônimo de gênero musical. Sem músicas felizes ou românticas, a banda expressa em suas letras angustiantes a dor, o esforço e a reflexão, traduzindo a linguagem dos jovens de sua época. “É um desconforto confortante. Nossos fãs se identificam com esses assuntos através de nossas músicas”, diz o vocalista Chester Bennington.

Segundo single da carreira, “Crawling” é a precursora das músicas introspectivas da banda. Em nenhum momento a palavra “você” é proferida. Embora não fique claro, a canção, caracterizada pela alternância de partes leves e pesadas, se baseia nos abusos sexuais sofridos por Bennington na juventude. “É sobre eu ser o motivo por me sentir dessa forma. Há algo dentro de mim que me põe pra baixo”, declarou o vocalista à Rolling Stone americana.

A interpretação individual está presente nas letras do Linkin Park. Em “Breaking the Habit”, o vocalista e multi-instrumentista Mike Shinoda escreveu sobre um amigo viciado em drogas. Da mesma forma que “Crawling”, isso não está evidente, mas algum problema a ser enfrentado fica nítido na canção, que levou cinco anos para ser finalizada.

Apesar de grande parte do público e da crítica considerar a forma como o Linkin Park trabalha o rap e o rock em seu som como sua marca registrada, outro aspecto é ainda mais evidente na forma como a banda trata suas composições. Criar música com partes leves e pesadas e elementos que, à primeira vista, não entrariam em consenso.

Toda música é feita para que determinada pessoa possa cantar. No caso do Linkin Park, as vozes guias ficam ao cargo de Chester Bennington. Dotado de uma garganta poderosa, Bennington faz com que o som do Linkin Park possa fluir tanto ao compasso de guitarras pesadas como de loops de teclado, samplers e sinterizadores. Ao contar também com um vocalista para raps e harmonias mais baixas, Shinoda, e um DJ, Joe Hahn, a criatividade do Linkin Park é imensurável. Por isso, a power ballad “Shadow of The Day” e a punk/hardcore “Given Up”, mesmo que possam ter assustado de início, caíram nas graças dos fans, que não exigem que o rap apareça só para ocupar espaço .

Hits como “One Step Closer”, “Numb”, “What I’ve Done” não apresentam, ou apresentam pouco, rap. Mas desde o Hybrid Theory há passagens leves e pesadas na musicalidade da banda. Somente com a terceira canção de trabalho do disco, “Papercut”, raps de Mike Shinoda dominaram os versos. Com “In the End”, o Linkin Park encontrou seu ponto de excelência. Piano, vocais melódicos de Bennignton se alternando com raps de Shinoda nos versos e refrão poderoso.

No Meteora, além da guitarra rítmica presente em diversas faixas e da incorporação de instrumentos de corda, um fator o distingue do primeiro disco: a eletrônica. “Isso sempre esteve presente em nossa música. Mas às vezes queremos deixá-la em mais evidência”, diz Shinoda sobre a diferença do disco em relação ao antecessor. Comprova-se as palavras do rapper pelos samplers de “Somewhere I Belong”, “Faint” e “Lying From You”, além da peça que quebra tudo o que se pensava de Linkin Park até então, “Breaking the Habit”.

A falta de rap não fez de Minutes to Midnight um fracasso, pelo contrário. “O rap não tem que estar lá só por estar. Tem que ser bom”, disse Shinoda à época de lançamento do terceiro disco. Dos cinco singles do álbum, somente em “Bleed It Out” o público ouviu Shinoda rapear. Como se não bastasse, a música é a única de todo o álbum a ter a marca registrada do Linkin Park, o rap e o rock simultaneamente, porém com rimas mais soltas e guitarras anos ’70, diferentemente dos discos predecessores.

Depois do sucesso monstruoso dos dois primeiros discos, sendo Meteora lançado numa época em que o chamado new metal já havia morrido, Minutes to Midnight foi um risco enorme para quem já tinha descoberto a fórmula do sucesso. Em 12 músicas, 12 gêneros diferentes. E o Linkin Park acertou novamente.

Agora, o que podemos esperar de uma banda que conseguiu tanto em tão pouco tempo? Será que vai conquistar ainda mais fãs? Voltará às origens? Tentará uma nova maneira de unir o rap e o rock? Fará músicas sem brilho e investirá nas mesmas fórmulas?

A resposta para todas essas perguntas e para tantas outras que possam surgir já tem nome e data. A Thousand Suns chega às lojas em 14 de setembro. Se depois de uma década de sucesso o Linkin Park ainda continuará a ser o maior expoente do rock, difícil afirmar. Mas talento para isso é inegável que os donos de oito singles número 1 na Billboard têm de sobra. Rumores sobre A Thousand Suns afirmam que se trata de mais um álbum arriscado, em que, mais uma vez, o que se pensava sobre Linkin Park terá de ser reconsiderado. Diante disso, só nos restam duas opções: ou o Linkin Park queimará no fogo ou resplandecerá sob mil sóis novamente. Aposto na segunda opção.

Ode à Guitarra

Tocar guitarra com sua banda era o maior prazer de Hêndrico. Desde a pré-adolescência, quando começou a escutar seus ídolos da música, o instrumento passou a ser o seu bem mais valioso. Já há dez anos como músico amador, sonha conseguir que uma gravadora se interesse pelo som de sua banda, para que possa sair de sua terra natal, um povoado do interior da Arimandia, e excursionar pelo mundo como um rockstar.

Depois de inúmeras audições, porém, nenhuma gravadora demonstrou apoiar a banda de Hêndrico, que já era famosa no meio musical do povoado por ser presença garantida nas noites de sábado, quando tocava no palco da praça principal da cidade. Cansado da desilusão musical, Hêndrico, durante um ensaio de sua banda, destruiu sua guitarra, da mesma maneira que famosos guitarristas fazem com o instrumento quando terminam de tocar uma canção pesadíssima. A loucura se abateu sobre o jovem músico. Era o fim do sonho musical.

A banda, pois então, entrou em recesso por tempo indeterminado, até que Hêndrico conseguisse outra guitarra. Mas ele não estava disposto a isso. Música, a partir do momento que a guitarra se chocou ao chão, era arte para se apreciar, não mais para fazer. E foi assim até que veio a depressão.

No povoado de Hêndrico, guitarras não eram muito comuns. Poucos eram músicos, e os que eram tocavam instrumentos menos estridentes. Conseguir uma guitarra nova não seria possível naquele lugar. Hêndrico tentou mudar de instrumento. Improvisou uma bateria com percussões mais simples. Não funcionou. Tentou o contra-baixo. O som do grave instrumento não era gritante, então complementou-o com pedais de distorção. Mesmo assim, não deu certo, pois o feeling era completamente diferente. Hêndrico precisava fazer um power chord novamente, solar, criar riffs que marcassem a vida das pessoas. Só a guitarra o permitia isso.

Quando parecia estar no limite de sua sobrevivência, deprimido pela falta de uma guitarra em seus braços ou que simplesmente pudesse ver e ouvir frente a frente, uma notícia surgiu. Mas como uma faca de dois gumes. Sua banda favorita, a maior influência de sua vida, anunciava um disco novo, porém, acústico. Era o seu fim.

Fugir e buscar uma salvação pelas terras de Arimandia foi a sua saída. Sem dizer adeus, disparou pelo mundo. Antes de deixar o seu povoado, no entanto, foi convidado para um grupo musical. Tocaria violão… numa roda de pagode. “Quem sou eu? Perdi minha identidade, minha honra!”, pensou Hêndrico, enquanto chorava ao se recordar de sua guitarra.

A busca por uma guitarra não era meramente um capricho pessoal. Hêndrico precisava sentir a alegria de viver novamente. Sem o instrumento de seis cordas, nada fazia sentido. A música que sobrava, com vozes guias baratas, sem explosão de sentimento, artificial, era atordoante para ele.

Depois de meses ausente de casa, Hêndrico enviou uma carta à sua família. Dizia que, no coração de Arimandia, encontrou um mundo novo, onde foi possível recuperar a felicidade. Junto da missiva havia um CD e uma foto. O disco continha uma única faixa, ininterrupta, de 80 minutos. Até hoje, se trata do maior solo que se tem notícia. Sem vocais, sem bases, sem acompanhamento. Somente a guitarra de Hêndrico. Na foto, ele acariciando a razão de seu viver, a salvação, o sorriso do dia a dia, aquilo que o livrou de uma vida de amargura: uma Fender Stratocaster.

Atraso e interrupção não impedem Guns N’ Roses de ir da “China” ao “Paraíso”

Cenário mescla artes chinesa e da banda

Se a China ainda não é uma democracia, talvez a culpa pelo “atraso” seja de Axl Rose. Previsto para a noite de sábado 13 de março, o Guns N’ Roses subiu ao palco do Estádio Palestra Itália, em São Paulo, com mais de três horas de atraso, já na madrugada de domingo, e por pouco a apresentação não durou apenas dois minutos, devido a uma interrupção na execução da “democracia chinesa”.

Mal o primeiro refrão da noite acabara de ser executado, da música título do álbum que demorou 15 anos para ser lançado, Chinese Democracy (2008), e um susto. “Stop, stop! Stop, stop!”, berrou Axl. De súbito, a banda parou de tocar, congelando o coração das 38 mil pessoas que lotaram o estádio.  Da pista vip, um copo d’água foi arremessado em direção ao vocalista. Apesar da idade, Axl ainda é o mesmo. Ameaçou cancelar o show e desafiou o desconhecido agressor a um conflito cara a cara. Depois do sermão, a música foi retomada, e os fãs não teriam mais motivos para temer um show meia boca.

“You know where you are? (Você sabe onde está?)”, perguntou Axl, em meio a riffs de guitarra inconfundíveis. A resposta estava na ponta da língua do público. “You are in the jungle, baby (Você está na selva, querida)”, afirmou, e o clássico “Welcome to the Jungle” foi a primeira das muitas músicas de Appetite for Destruction (1987), primeiro álbum da banda, que dividiram o set list com o disco carro-chefe da turnê. Em seguida, “It’s So Easy”, primeiro single da carreira, e “Mr. Brownstone” são celebradas pela sólida base de fãs, que parece não ligar para a ausência dos músicos de tempos idos em que o Guns N’ Roses era considerada a banda mais perigosa do mundo.

Há oportunidade então se apresentou, mas nem com a balada “Sorry” houve um pedido de desculpas pelo atraso. Embora os hits de mais de 15 anos fossem as músicas mais esperadas, Chinese Democracy teve seu momentos de êxtase, principalmente com “Better” e seu refrão poderoso.

O show do Guns N’ Roses não é meramente uma banda em cima de um palco. Tudo é milimetricamente produzido. Telões ao fundo do palco exibem ora a banda ora arte de cunho chinês. Ao centro, a bateria sobre o alicerce, que esconde um piano em seu interior. Ao redor, labaredas disparam com a intensidade das canções. Com 48 anos nas costas e 23 de rock n’ roll, Axl ainda sai em disparada de uma extremidade a outra do palco, mas é visível seu cansaço físico. Porém, nada que inúmeras troca de roupas para esconder o suor.

A banda soa unida como se os músicos tocassem juntos há anos. Cada um dos três guitarristas e o tecladista Dizzy Reed fazem seu solos. Mas quando o guitarrista DJ Ashba toca a introdução de “Sweet Child O’ Mine”, logo após seu solo, até mesmo os mais novos, que mal tinham nascido quando o Guns já dominava as paradas, sentem falta da formação clássica da banda.  “Sweet Child O’ Mine”, aliás, é disparada a música mais cantada pelo público. Nem mesmo a agitada “You Could Be Mine” exerce tanto poder sobre o público quanto “Sweet Child O’ Mine”.

Com Axl ao piano, apresenta-se o momento mais lindo do show. A épica “November Rain” conta com jogo de luzes e chuva de prata, que só contribuem para destacar ainda mais essa grande composição.

A interação com o público fica por conta de “Knockin’ On Heaven’s Door”. Axl aproveita a extensão da música e explica a confusão em que a banda se meteu dias antes, quando deveria ter tocada numa boate para um público vip e não apareceu. De acordo com ele, foi avisado que deveria preservar a voz para que pudesse cantar no show do Palestra Itália. “Então eu deveria ir até lá (à boate) e não poder cantar aqui para vocês hoje?”, arrancando aplausos do público, como já deveria ter premeditado que aconteceria.

Para provar que o incidente no início da apresentação já tinha sido esquecido, antes de “This I Love”, terceiras das cinco canções do bis, o vocalista pede que o público o esculache. “Fuck you”, dizia, e a platéia complementava com seu nome: “Fuck you, Axl Rose”, para alegria do vocalista.

Bandeira do Brasil foi um dos muitos presentes dos fãs para Axl Rose

Da “democracia chinesa” à “cidade paraíso”, e quase três horas no meio disso. Inicialmente com palmas, depois uma pista enfurecida. Assim o Guns N’ Roses encerra sua apresentação com “Paradise City”, fogos explodindo no céu, chuva de papel picado e um refrão entoado como hino.

No fim, o atraso foi nada mais que um mero detalhe na composição de um verdadeiro show de rock.  Algo que, apesar de ser recorrentemente lembrado sobre o show, não mancha a imagem de Axl e seu Guns N’ Roses, de volta a ativa depois de longos anos de ostracismo. Pelo menos na arte, a “Democracia Chinesa” foi aplaudida pelo público.

Após 11 anos ausente, Metallica se redime e “faz História”

“Vamos fazer História aqui. Nós temos ótimos cantores aqui presentes esta noite. Vocês devem cantar como jamais cantaram em suas vidas. Esse vai ficar conhecido como o show de volume mais alto: ‘Metallica faz História em São Paulo’ [gesticula o vocalista, abrindo os braços com as mãos abertas, como se criasse uma manchete de jornal]. Então, está faltando uma música? Qual é? [Gritos da platéia]. Isso mesmo. Essa é de Kill ’Em All, são três palavras simples: ‘Seek and Destroy’.”

Simpatia não é exatamente o que se espera de uma banda de metal. Não somente no fim da noite de domingo (31/01), em um Morumbi com arquibancadas vazias, uma vez que a pista foi liberada para todos, mas durante as duas horas de apresentação, o Metallica se mostrou uma banda apaixonada por seus fãs, que já haviam lotado o mesmo estádio na noite anterior e comparecida em massa ao show em Porto Alegre, dias antes.

Assim que as luzes se apagam, os telões nas laterais do palco exibem cenas do clássico faroeste Três Homens em Conflito (The Good, the Bad and the Ugly). Enquanto Clint Eastwood dispara tiros no bandido, a belíssima “The Ecstasy of Gold”, canção que abre os shows do Metallica desde os idos dos anos 1980, enche as fãs de expectativa.

Sem frescura, as guitarras roubam a cena com a primeira canção oitentista da noite, “Creeping Death”, seguida por “Ride the Lightining”. “Vocês estão prontos?”, berra em bom português James Hetfield, antes de emendar versos de “Fuel”, única canção de Reload que parece ter sobrevivido ao seu tempo. Como se não bastasse a força do hit, lança-chamas iluminam as laterais do palco, enquanto o Metallica faz a pista ir à loucura.

“Vocês gostam de música pesada, não é? Nossos amigos do Sepultura nos disseram que sim. Essa é para eles”, diz Hetfield, dedicando a famigerada “Sad But True” para a banda de abertura. Logo após, surge um violão no palco. Surpreendentemente, o clássico “The Unforgiven”, pouquíssimas vezes nos sets da turnê “World Magnetic”, é tocado – provavelmente causando inveja aos fãs que acompanharam a banda nos outros shows.

Death Magnetic, disco carro-chefe da turnê, não fica de fora. O Metallica emenda “That Was Just Your Life” e “The End of the Line”, antes de mais uma surpresa. Com introdução leve e aumento gradual de peso, característica primordial em suas baladas, “Welcome Home (Sanitarium)” é celebrado pelo público saudosista. Voltando ao seu álbum mais recente, a banda pede a contribuição do público para a canção de maior repercussão do disco, “Cyanide”. Logo em seguida, a quarta e última música de Death Magnetic é executada, “My Apocalypse”.

Se alguém ainda não estava convencido do repertório da banda, as cinco próximas músicas fizeram qualquer um se render ao metal do quarteto. Explosões, como de granada, pelo palco, um som bélico toma a atmosfera, fogos de artifício preenchem o céu, então entra em cena a épica “One”. Para completar, os telões perdem as cores, ficam em preto e branco, contribuindo com o clima da canção antibelicista. A poderosa “Master of Puppets” faz a alegria dos fãs. Para “Fight Fire With Fire”, obviamente, os lança-chamas não falham.

Singles mais bem sucedidos de Metallica, vulgo Black Album, “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman” contrastam emoções na pista. A primeira faz todos cantarem com a alma, enquanto a segunda não deixa ninguém parado, o mar de gente é pura energia em explosão.

Para o bis, “Helpless”, cover de Diamond Head, banda de heavy metal britânica, uma das influências do Metallica. A noite é encerrada com “Hit The Lights” e a esperada “Seek and Destroy”, que causa um furor enlouquecedor na pista.

Evitando correr riscos, Metallica ignora o controverso álbum St. Anger e a fase mais pop, de Load e Reload, com exceção de apenas uma única música. Após o vexame dos shows cancelados em 2003, não errar é como um pedido de desculpas aos fãs que tiveram de aguardar 11 anos para rever a banda em solo brasileiro.

A “World Magnetic Tour” chega ao seu fim no Brasil, mas sem antes ouvir um “do caralho!”, proferido pelo baixista Robert Trujillo, e repetido dezenas de vezes pelo público antes do Metallica deixar o palco. Quem sabe para voltar num curto espaço de tempo e sem erros do passado para serem corrigidos.

Green Day explora contradições do século em ópera-rock

Para uma banda de rock, quatro anos entre um álbum e outro podem significar muitas coisas. Em alguns casos, é a falta de inspiração que determina o longo jejum de novas músicas. Há artistas que, cansados da rotina de estúdio-turnê, preferem tirar férias, entram em hiato por tempo indeterminado. Quatro anos podem significar também a ruína de uma banda. Nesse período, muitos fãs deixam de vestir camisetas pretas com logos auto-explicativos, não se lembram mais onde guardaram o CD com músicas que movimentaram sua geração e, pior de tudo, criticam o artista pelo demora, alegando que este tem apenas interesse em dinheiro e compõe músicas pop de fácil aceitação. Tudo o que se construiu está em jogo entre um disco e outro.

No caso do Green Day, quatro anos representam crise de meia idade e o fim da era George W. Bush. Depois do multi-platina American Idiot (2004), o power trio apresenta sua segunda ópera-rock. 21st Century Breakdown, lançado em 15 de maio de 2009, teve três anos de composição, iniciado em janeiro de 2006. O produtor Butch Vig se aliou à banda apenas no último ano do processo de criação das músicas, provavelmente contribuindo para que a espera não chegasse há cinco anos.

21st Century Breakdown

Christian e Gloria, personagens da ópera-rock, representados na capa de 21st

A faixa título, e também quarto single do disco, é o que o Green Day traz de melhor. Billie Joe Armstrong (vocalista/guitarrista) canta como nunca se ouviu antes. De uma introdução simples, a música cai em ritmo forte, com Armstrong apresentando boas melodias, dentro do seu limite vocal. Quando se pensa que já ouviu tudo, a ponte leva o Green Day a sua zona de conforto. A música fica nervosa, com vocais de protesto. No fim, se torna uma canção que deve levar multidões a cantarem com a banda, em uma espécie de hino. Soa, definitivamente, épica.

Uma banda experiente não comete o erro de começar uma nova jornada com algo de difícil aceitação. O primeiro single “Know Your Enemy” foi feita para ser hit. Refrão pegajoso, riff repetitivo, versos de simples assimilação. A música lembra um pouco do Green Day dos anos 1990 por ser simples, sem muitas variações. Mas, ao mesmo tempo, remete aos singles de American Idiot.

O principal diferencial de 21st são as melodias vocais. Realmente Armstrong evoluiu com os anos. O Green Day também utiliza mais backing vocals e harmonias vocais, para sustentar as diferentes passagens em suas músicas. Dessa vez, é possível ouvir três ou quatro riffs de guitarra numa mesma canção. Além disso, quem se acostumou com sucessos da banda como “Basket Case”, “Hitchin’ a Ride”, “Minority”, vai estranhar a presença de piano e cordas nesse álbum.

Por ser um disco de ópera-rock e o Green Day não tocar mais como nos anos 1990, pensar que o punk já era é um erro grande. Músicas como “Christian’s Inferno” e “Horseshoes and Handgrenades” provam que o som característico da banda não são desprezados. Bons refrões também não faltam ao disco, como no single “East Jesus Nowhere” e “The Static Age”. Esta última com bom conjunto dos instrumentos, sendo uma das melhores do álbum.

As baladas também têm seu momento, embora seja difícil apontar uma balada que não acompanhe ritmos mais pesados. “Viva La Gloria!”, “Viva La Gloria? (Little Girl)” e  “Before the Lobotomy” de início se mostram suaves. Mas é só a guitarra soltar os primeiros acordes para que as músicas não sejam definidas como baladas. Nesse caso, “Restless Heart Syndrome”e “21 Guns”, segundo single, são as melhores músicas para momentos mais tranquilos.

Em “21 Guns”, Armstrong canta sem muito esforço e sua voz soa fraca, como de um homem deprimido. Apesar dos mais de cinco minutos, a música rola fácil.

”American Eulogy: Mass Hysteria/Modern World” parece ter saído de uma jam session. Um riff atrás do outro, versos quase falados, refrões repetitivos. Há uma similaridade entre a maioria das músicas: as partes leves cedem lugar rapidamente a guitarras hardcore. A última música, “See the Light”, é mais uma a apresentar esse aspecto, que, caso alguém torça o nariz, deve antes ouvir as primeiras composições da banda, que, em sua maioria, não traziam muitas variações.

Provavelmente, 21st Century Breakdown não será tão bem sucedido quanto seu antecessor. American Idiot, primeira ópera-rock da banda, embora menos consistente, traz mais músicas com potencial para singles aclamados pelo público. 21st tem tudo para agradar o público mais fiel do Green Day.

“Know Your Enemy” e “21 Guns” são as faixas que devem mais tocar nas rádios. Os quase cinco anos entre os álbuns valeram a pena. Resta esperar pelo próximo para saber se o Green Day continuará investindo em óperas-rock, voltará às origens ou dará novos passos na carreira. Mas, de qualquer forma, o que os fãs mais querem é não ter de esperar tanto tempo por um novo disco.

Para meu amigo José Carlos Cazarim Filho, o Zé.
Desculpe pela demora, mano!

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